segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Reflexão Sobre o Amor

Reflexão Sobre o Amor
Renato Frossard 

Amor, atração, simpatia, querer, essas coisas se confundem, embora não sejam exatamente a mesma coisa. O amor, quando eros, é sempre acompanhado de desejo. Desejo de tocar, de sentir o toque, o cheiro. O amor é uma força que leva as pessoas a agir e reagir em relação ao ser amado. 

O amor é ainda mais complexo quando não é correspondido. Quando amamos alguém que não sente o mesmo por nós, como num ping-pong sem oponente. 

Mas como seria chata a vida sem o amor. Mesmo que não seja correspondido, é melhor que exista amor, pois ele preenche a nossa vida e nos faz esquecer o sofrimento. A idealização de outro ser nos faz sentir que a vida vale a pena, ainda que venhamos a nos desiludir mais tarde.

É melhor amar, é bom amar. O amor nos faz sonhar com a sua realização. Nos faz sonhar em estar na companhia do outro. O amor, quanto mais infantil e tolo, nos leva a um estado de excitação e alegria sem motivo. O amor nos faz sorrir, apesar da dor. 

E tem uma coisa ainda mais legal a respeito de amor, é que mesmo na distância, mesmo depois de um adeus, ele continua vivo. O amor fica ali, dormente, como uma dorzinha lá no fundo do peito, que quase não se sente, mas que deixa claro que ele ainda está ali. O amor nunca vai embora. Mesmo quando alguém parte, o amor, ao contrário, permanece com a gente.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

A DESCOBERTA E A EXPRESSÃO DO SER POR MEIO DA VOZ

 

A DESCOBERTA E A EXPRESSÃO DO SER POR MEIO DA VOZ

Renato Frossard



RESUMO

A voz é um dos instrumentos musicais mais expressivos e tem o potencial de comunicar sentimentos e emoções mesmo quando não está associada ao uso de palavras. Este artigo busca refletir sobre este potencial da voz e sobre como podemos alcançar um melhor conhecimento de nós mesmos através de nossa própria voz, alcançando nossa identidade vocal.



INTRODUÇÃO



De acordo com ALVES (2017), “a voz é um componente da comunicação humana que expressa os nossos sentimentos e modifica-se constantemente de acordo com a idade, saúde física, sexo, tipo físico, profissão, condições ambientais e emocionais”. Segundo SAHDI (2014), “a voz é o instrumento impulsionador e extensivo da busca humana em se fazer expressar além de seu território corporal, entretanto, nada funciona sem que haja um alimento capaz de se concretizar numa ação efetiva: respirar”. Para ESTIENNE (2004, apud ALVES, 2017), uma boa voz é dotada de flexibilidade, é bem adaptada para funcionar de forma livre e durável, desde que as limitações naturais e fisiológicas sejam respeitadas. Segundo o autor, quando desenvolvida, a voz pode alcançar o máximo de seu potencial.

De acordo com DEWHURST-MADDOCK (1999, p. 44), a voz reflete a condição física e mental da pessoa, podendo ser considerada, segundo ela, a parábola da alma. Para a autora, assim como os sons ligam a personalidade do indivíduo à sua unidade espiritual dentro de um todo, a voz liga a menor onda ou partícula à energia do universo. Ela sugere que a voz pode ser educada e controlada e que aprender a fazer isto pode ajudar a pessoa a melhorar seu estado mental e emocional, além de desenvolver sua confiança frente à sociedade e suas habilidades comunicativas. A autora afirma ainda que a compreensão da voz é uma excelente disciplina de autoconscientização e que é vital para a arte de ouvir. Finalmente, ela diz que a maneira como usamos a voz proporciona o discernimento para a vida de uma forma geral e que as nossas vocalizações revelam como nossas energias, sentimentos, pensamentos e intuições colaboram para o desenvolvimento de um estilo vocal único.

O processo de produção da voz consiste na expulsão do ar dos pulmões que faz vibrarem as pregas vocais, localizadas na laringe. Durante este processo, o som é modificado pela boca, lábios e pela língua. Na verdade, se considerarmos o que diz GROTOWSKY (2001, p.137-162), neste processo, todo o corpo vibra juntamente com os órgãos fonadores, colaborando com a produção e modelagem do som que, por fim, resulta na voz própria da pessoa. De acordo com ALVES (2017), para uma boa produção vocal é necessário ter boa postura corporal e um bom equilíbrio dos estados emocionais e psicológicos. Por isso, segundo ela, é essencial praticar o relaxamento corporal, sobretudo na cervical, pescoço e músculos da face. Isto faz sentido, já que a prática rotineira de atividades físicas que promovam o relaxamento do corpo pode contribuir para um melhor funcionamento geral do organismo, devendo, portanto, beneficiar direta ou indiretamente a produção da voz. Vale à pena lembramos, também, que uma boa saúde física pode influenciar no perfeito funcionamento da voz, sendo necessário, portanto, que se faça um acompanhamento periódico dos órgãos diretamente envolvidos em sua produção. De acordo com DINVILLE (1993) há uma íntima relação entre o corpo e voz. É com eles, segundo ela, que o cantor exterioriza sua afetividade e desempenha o papel intermediário entre o público e a obra musical.

De acordo com DEWHURST-MARDDOCK (1999, p. 47), cada instrumento possui três elementos básicos que, em conjunto, são responsáveis pela geração do som. São eles: a fonte de energia, um elemento vibrador e os ressonadores. No caso da voz, portanto, a fonte de energia é o ar que é expelido pelos pulmões, o vibrador são as pregas vocais e os ressonadores são as cavidades de ar e estruturas como boca, garganta, nariz e, porque não dizer, todo o corpo, se pensarmos do ponto de vista de GROTOWSKY. De acordo com ALVES (2017), a vocalização, portanto, consiste de três processos essenciais: (1) a formação ou produção do som, (2) a ressonância ou amplitude harmônica do som e (3) a articulação que, segundo a autora, é a formatação e a saída dos sons vocálicos em unidades linguísticas, isto é, as palavras. Segundo ela, o som produzido na laringe é modificado e amplificado pela faringe, nariz e boca e, posteriormente, modelado pelos movimentos dos lábios e da língua que são responsáveis pela formação dos sons vocálicos e consonantais, que juntos formam as palavras que vão comunicar sentido ao receptor. A autora explica, ainda que durante o processo de emissão da voz, na inspiração, as pregas vocais se afastam, enquanto na expiração elas se aproximam e vibram, produzindo o som. Isto, no entanto, só é possível porque, durante o movimento respiratório, os músculos diafragmáticos se expandem, na inspiração, permitindo que os pulmões captem o ar do ambiente e o distribuam para o corpo. Já na expiração, ocorre o oposto, os músculos diafragmáticos relaxam e permitem que o ar seja expulso dos pulmões. Desta forma, além de garantir as funções vitais que dependem do oxigênio para ocorrerem, o sistema respiratório permite que nossa voz seja produzida e que possamos nos comunicar com outros através da fala, de interjeições e do canto.



I - FISIOLOGIA DA VOZ



A fisiologia da voz consiste no funcionamento de nosso aparelho fonador, em todas as suas etapas até o momento da produção efetiva da voz. De acordo com ALVEZ (2017), nosso aparelho fonador é o conjunto de musculaturas que utilizamos para a articulação, ressonância, fonação e respiração. Segundo ela, este aparelho se põe em funcionamento a partir do momento em que o ar que passa pela glote produz vibrações de diferentes intensidades, que correspondem a uma nota musical ou a um som elementar.

O som que produzimos através de nosso aparelho fonador, isto é, a nossa voz, possui características próprias que podem ser qualificadas como a cor ou a identidade de nossa voz. Este conjunto de características que permitem que nossa voz ou o som de um instrumento seja reconhecido por outras pessoas é chamado de TIMBRE. De acordo com ALVES (2017), o timbre é definido pelo formato da laringe e determina qual é a tessitura vocal de cada pessoa, isto é, define se a pessoa terá uma voz mais grave ou mais aguda. Além das características anatômicas e fisiológicas da laringe como o comprimento do pescoço e uma maior ou menor proeminência do “gogó” ou pomo-de-adão, o sexo também influencia na qualidade ou tessitura vocal das pessoas. Em geral, as vozes masculinas se classificam entre baixo, barítono e tenor; enquanto que as vozes femininas se classificam entre contralto, mezzo soprano e soprano. Baixo e contralto são vozes mais graves; barítono e mezzo soprano são vozes intermediárias; e tenor e soprano são vozes mais agudas.

A busca de uma identidade vocal própria é uma tarefa que deve ser desempenhada por cada pessoa. Conhecer as características e as limitações da própria voz é extremamente importante para que se possa garantir a saúde e a qualidade vocais. De acordo com Regina MACHADO (apud MARIZ, 2013, p. 353), “A coisa mais importante para um cantor é que ele descubra sua própria maneira de cantar, sua voz”. De fato, é importante que cada pessoa, sobretudo aquelas que utilizam a voz profissionalmente como cantores e atores façam este exercício de autoconhecimento, buscando encontrar a sua própria verdade em termos de voz. Não se deve fazer como alguns artistas ou profissionais da voz que, por nutrirem admiração por certo ídolo, buscam imitar sua voz, aproximando ao máximo o seu timbre do daquele artista ao qual admiram. Não que seja errado nos inspirarmos em algum artista ao qual apreciamos, mas o erro estar em querermos nos tornar uma cópia fiel daquele. Um exemplo recente é a cantora popular Maria Rita que, mesmo sendo filha do ícone Elis Regina, busca ter a sua própria identidade vocal e realizar uma carreira baseada nos próprios méritos, ainda que, de alguma forma, sua herança biológica possa favorecê-la no campo das artes, devido ao carinho que todos têm pela memória de sua mãe.



II- A VOZ COMO EXPRESSÃO DO SER



Dentre todos os instrumentos a voz é, provavelmente, o mais expressivo. De fato, através da voz podemos comunicar emoções com ou sem palavras. Um simples suspirar sonoro pode denotar alivio ou desânimo. Uma gargalhada mostra que a pessoa está alegre ou que algo mexeu com seu senso de humor. Um grito pode expressar dor ou medo e um som interjetivo pode comunicar os mais diversos tipos de emoções. Através do canto é possível que o artista expresse o seu próprio ser em forma de som. Por tratar-se de algo tão pessoal e único de cada indivíduo, a voz serve como a marca registrada de cada pessoa e, portanto, pode representar de forma bastante acurada aquilo que a pessoa realmente é, seus sentimentos e emoções.

De acordo com SAHDI (2014 apud ALVES, 2017) a palavra usada adequadamente pode trazer sentimentos de calma, paz e harmonia. Segundo ela, estas palavras podem servir para dulcificar, educar e divinizar o ser. Ao mesmo tempo, a autora chama a atenção de que, a mesma palavra, se for dita com tal objetivo, pode trazer dor, sofrimento, tristeza, etc. Em outras palavras, através de nossa voz podemos transmitir tanto emoções positivas como a alegria e o amor quanto emoções negativas como o ódio e o rancor. No entanto, apesar da importância da palavra, em si, ser inegável, pode-se dizer que a voz é ainda mais importante na comunicação destes sentimentos e significados, pois tem o potencial de modificar e transformar as próprias palavras. Assim, para um artista do canto ou das artes dramáticas, a expressão do ser através da voz é de grande importância, pois, é através dela, em conjunto com outros recursos como a expressão facial e corporal, que ele transmite para o seu público os sentimentos do texto musical ou teatral. De fato, as palavras isoladamente não são suficientes para expressar tudo aquilo que se pode demonstrar através da voz, em conjunto com o corpo, os lábios, a face, e o olhar.

Desde que nascemos, procuramos expressar o ser através de nossa voz. O choro estridente dos recém-nascidos clama por socorro diante de um mundo totalmente novo e desconhecido. Quando consolados por seus protetores, os sons infantis que produzem demonstram contentamento e segurança, mostram-se satisfeitos e tranquilos. Com o passar dos anos deixamos de usar este recurso com tanta frequência, mas recorremos a outros que, igualmente, lançam mão das habilidades da voz. Se estamos alegres, isto é notável no som da nossa voz. Por outro lado se estamos tristes ou irritados, nossa voz também o denunciará. Mas como podemos tomar controle de nossa voz para que a utilizemos para expressar as emoções de um texto de canção ou teatro, mesmo que estas emoções não coincidam com aquela que realmente experimentamos no momento do canto ou interpretação dramática? Este é um questionamento que tem me impulsionado a pesquisar sobre a questão da expressividade da voz.

O cantor, assim como o ator, é um artista e precisa comunicar sentimento ao seu público. Quando ele utiliza a voz para produzir melodias há um texto subjacente com o qual ele precisa contribuir para que a mensagem seja transmitida com sucesso. Suponhamos que o texto da canção interpretada por um cantor trate da temática amor. Tal texto narra a história de uma mulher que, diante da iminente partida do ser amado permanece incrédula, arrasada. Ela busca a todo custo se agarrar ao ser amado e impedir sua partida. Mas quando percebe que sua tentativa é vã, ela tenta se vingar, difamar, ofender. Mas ao final do texto ela constata que tudo é inútil, pois ela simplesmente ama e pertence ao seu algoz. Trata-se de uma cena intensa, carregada de emoções que vão da incredulidade à submissão. Ora, ao interpretar uma canção como esta, o cantor ou cantora precisará lançar mão de outros recursos que não sejam simplesmente o texto. Ele poderá recorrer a expressões faciais e gestos corporais, que podem ser resultado da emoção que atravessa o seu ser. Mas o recurso ou a energia maior que poderá contribuir para o sucesso da mensagem é a própria voz do cantor. De fato, por meio desta emoção que o atravessa, o cantor poderá moldar a sua voz de forma que ela percorra todos estes estágios ou estações de emoção. A voz passará pela incredulidade, depois passará pelo inconformismo, em seguida se dirigirá para a raiva, o desejo de vingança, a sensação de pena de si mesmo/a até culminar no sentimento e na constatação da submissão, pelo fato de ainda amar perdidamente o ser que o/a abandona. Este processo pode parecer simples quando se coloca isto em forma textual, mas na prática, é uma tarefa bastante complexa. Expressar a si mesmo por meio da voz exige prática, preparação, autoconhecimento, ao menos um conhecimento mínimo das artes dramáticas, o conhecimento do poder do gesto e o entendimento do potencial comunicativo da voz em conjunto com um texto linguístico e outro texto corporal. A boa notícia é que o potencial comunicativo da voz é um fato inquestionável.



CONSIDERAÇÕES FINAIS



Conhecer a própria voz é conhecer a si mesmo. Portanto, de uma forma geral, pode-se dizer que o princípio do sucesso em expressar o próprio ser através da voz está em conhecer as próprias emoções e aquelas que se pretende transmitir ao público. Muitas vezes as nossas emoções no momento da performance são tão intensas que influenciam na nossa maneira de cantar ou atuar, moldando aquilo que realmente executamos. Outras vezes, a intensidade de nossas emoções é tão grande que acaba por contribuir para que nossa performance seja muito mais emocional e expressiva. Outras vezes, ainda, a nossa emoção pode nos calar por completo e nos levar ao descontrole e às lágrimas.

Temos uma voz para nos expressar, o que já é um bom começo. Mas precisamos tomar consciência do potencial de nossa própria voz e da nossa emoção, para que aquilo que fazemos seja o canto, o teatro, a comunicação ou qualquer outro tipo de uso da voz seja bem sucedido. Mas principalmente para os artistas, é necessário ir mais fundo, buscar entrar em contato com a própria alma, chegar a feridas escondidas no fundo de nosso ser, conhecer os próprios medos e incertezas, bem como aquilo que julgamos forte em nós. Somente através deste autoconhecimento estaremos preparados para desempenhar a nobre arte da expressão do nosso ser através da nossa voz, descobrir a nossa identidade.



























REFERÊNCIAS



ALVES, Cintia de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2017.

DINVILLE, Claire. A técnica da voz cantada. ENELIVROS. Rio de Janeiro, 1993.

DEWHURST-MADDOCK, Olivea. A cura pelo som: técnica de auto ajuda através da música e da própria voz. MADRAS. São Paulo, 1999, p. 44.

IDEM. p, 47.

ESTIENNE, Françoise. Voz Falada, Voz Cantada: avaliação e terapia. REVINTER. RIO DE JANEIRO, 2004, Apud ALVES, Cintia de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2017.

GROTOWSKY, Jerzy. In: O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowsky 1959-1969. p. 137-162. São Paulo, 2001.

SAHDI, Anna Paula. O Caminho Natural da Voz: método de canto com enfoque Terapêutico. São Paulo: Editora Alfabeto, 2014, Apud ALVES, Cintia de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2017.

MACHADO, Regina. Entrevista. In MARIZ, Joana. Entre a expressão e a técnica: a terminologia do professor de canto – um estudo de caso em pedagogia vocal de canto erudito e popular no eixo Rio-São Paulo. Tese (doutorado em música). IA – UNESP, São Paulo, 2013.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Estamos vivendo a ditadura da superação. Se você não correu a São Silvestre, se não ganhou o Big Brother ou não acertou na Mega-Sena, então você não é nada. Precisamos reaprender a valorizar as pequenas conquistas diárias como ser capaz de nos levantar, escovar os dentes, pentear os cabelos e ir para o trabalho. Só quem conhece o peso de um adoecimento é capaz de entender como essas coisas são grandiozas do ponto de vista do convalescente. Antes de sair para correr, é necessário amarrar o cadarso.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

O Eu Que Eu Era

O Eu Que Eu Era

Renato Frossard

Começo a narrar esta história a partir do momento em que me lembro de começar a existir. Uma criança como outra qualquer, que gostava de correr e brincar, é assim que eu me lembro de ter sido. Lembro-me que amava muito meu pai, e que sempre corria para o colo dele quando ele chegava do trabalho. Me lembro que ele sempre me mandava colocar a mão no seu bolso, de onde eu tirava um delicioso chocolate ou algumas balas. De minha mãe me lembro pouco. Só me lembro de ela fazer várias coisas gostosas, e de fazer de tudo para eu comer arroz doce, o que eu detestava. Também me lembro de que uma vez ela caiu, enquanto carregava um monte de vasilhas na cabeça, e de que eu ri muito, gritando: bem feito! bem feito! Pelo que fui severamente repreendido e levei uns tapas. Não entendi muito bem o motivo de ter apanhado, já que tinha sido engraçado o tombo. Devo ter feito algo muito ruim para merecer tal castigo.
Me lembro de ter passado parte da infância na casa de minha avó, a Badô, em Governador Valadares. Me lembro de gostar muito de um pianinho de brinquedo de minha irmã e de correr atrás de tanajuras. O quintal era grande e dava pra correr bastante. Meu avô saía bem cedinho e comprava o pão, que vinha enrolado em papel, amarrado com barbante. Ele deixava o pão numa abertura que havia no muro, próximo ao portão. Minha avó ia bem cedo e pegava o pão para tomarmos o café da manhã. Ela preparava café bem quentinho, leite e pão com manteiga Ibituruna, uma delícia. Ela sempre dizia que podíamos comer à vontade, mas, às vezes, dizia que comíamos demais.
Depois me lembro que mudamos para Coronel Fabriciano. Eu não gostava de usar roupas. Lembro-me de tirar o short e ficar andando pelado por aí. Meus pais me reprovavam por essa atitude e me mandavam colocar as roupas. Morávamos em uma rua apelidada pelos moradores de Beco, pois para chegar à mesma tínhamos que passar por um estreito beco que dava para a rua de barracões de aluguel, onde vivíamos. Nesse endereço, me lembro de ter sido atropelado por um fusca ao atravessar a rua para ir à padaria. Felizmente não foi nada grave, e aqui estou escrevendo essa narrativa.
Depois nos mudamos para outro bairro, onde me recordo de uma briga entre minha mãe e a vizinha. O tempo fechou! Eram xingamentos mútuos. Baldes dágua pra lá, Tijoladas pra cá. E lá fomos nós mudar de novo. Graças a um prêmio na loteria mineira, meu pai conseguiu comprar um terreno onde havia uma casa pré-construída. Alí eu passaria a maior parte de minha infância e cresceria. Foi também onde passei alguns  dos momentos mais difícieis de minha existência. 
Chegamos naquela visinhança e fui logo conhecendo os novos coleguinhas da rua. Sergio, Olavo, Cleyson e Clovis foram os primeiros que conheci, e os que se tornaram mais próximos. Sérgio achou estranho que eu ainda usava chupeta. Não entendi o porque. Achei estranho que dias depois minha chupeta sumiu misteriosamente. Chorei, esperneei, até ganhar dinheiro pra comprar uma nova. Mas aí eu já não achei graça no objeto e o abandonei de vez. Comecei a estudar num jardim de infância que ficava a mais ou menos uma hora de caminhada de onde eu morava. Não tinha muitos privilégios, por isso tinha que ir a pé mesmo, na companhia de meu irmão Edu. Embora ele fosse um pouco mais velho que eu, acabamos entrando juntos na escola, talvez por causa das constantes mudanças da família. Me lembro de fazer pinturas com aquarela, de aprender cantigas infantis e a escrever meu próprio nome. Me lembro também da despedida do jardim de infância, e da bonita professora que tínhamos.
No primeiro ano do ensino primário, me lembro de ter ido com minha mãe que me deixou lá. Não sei porque, chorei muito naquele primeiro dia. Tudo era tão estranho. Mas eu estava na turma de uma professora muito bonita, o que me acalmou. No dia seguinte, não sei porque razão, me trocaram de turma para a de uma outra professora muito feia a meu ver, Ana Gualberto, era o nome dela, se não me engano. Abri o berreiro. Com o tempo passei a gostar muito dessa professora, e com ela aprendi a ler e escrever.
No segundo ano, minha professora era uma verdadeira megera! Eu a odiava! Ela ameçava grampear a língua dos alunos se eles não se calassem, me inscreveu num programa de auxílio escolar por puro preconceito e disse que eu não precisava me preocupar pois eu não era “negro”. Certa vez ela quebrou uma régua de madeira em minhas costas. Quando vi a régua já estava quebrada. Um dia ela colocou um coleguinha do meu lado para que ele me fizesse apagar o texto toda vez que a letra ficasse “feia”. Certo dia peguei um dinheiro de meu pai sem pedir autorização e levei para comprar lanche na escola. Pensei que de alguma forma alguém saberia que eu tinha pego o dinheiro sem pedir ao meu pai. Então tive a brilhante idéia de dizer que havia achado o dinheiro em baixo da carteira. A professora mais do que depressa me tomou o dinheiro dizendo que iria guardar até aparecer o dono. Depois eu perguntei a ela se ela tinha achado o dono do dinheiro e ela disse: já chupei picolé com o dinheiro. Ai que ódio me deu! Me lembro de ter me vingado dela no final do ano dando nela uma bolada no peito num jogo de queimada. E assim o ano letivo chegou ao fim e eu continuei a trajetória em outra turma, com outra professora, nunca mais cruzando com a bruxa malvada.
Comecei a sofrer certos tipos de discriminação, supostamente por questionarem minha virilidade. Eu só me lembro de ficar com muito ódio de tudo e de todos, pois não enxergava em mim nenhum problema. Só me achava uma criança como outra qualquer, com a única diferença de ser sensível e gostar de música e de dançar. Começaram a me bater em casa e a me forçar a fazer trabalhos domésticos. Tinha ódio disso também, mas não tinha forças para me defender, então me submetia. Na escola passei a sofrer algumas tentativas de bullying, muitas bem sucedidas. Entre os colegas me sentia meio deslocado por não me sair tão bem nos jogos de futebol. Comecei a me interessar cada vez mais pela música. Minhas irmãs começaram a ser bastante agressivas e a me maltratar com surras e até privação de alimento. O casamento de meus pais foi por água abaixo depois de alguns problemas, pra não entrar em detalhes.
As irmãs então se tornaram as donas do pedaço e as surras pioraram. 
 Na adolescência conheci o karatê, que me ajudou muito a me tornar mais corajoso, forte e independente. Parei de apanhar em casa e na rua, o que foi uma grande revolução em minha vida. Conheci os grandes mestres Júlio Olguin e Matias Olguin, e amigos. Também me matriculei num curso do SENAI da USIMINAS, onde conheci pessoas incríveis. Eu treinava karatê e fazia o curso que, eu pensava, ia me dar uma profissão e um emprego vitalício. Felizmente isso não se concretizou. Continuei a treinar karatê e me formei faixa preta. Pouco tempo depois saí de Coronel Fabriciano e mudei-me para Belo Horizonte. 
 Na capital comecei a trabalhar na empresa Bang Bang Burger, onde fiquei por quatro anos. Conheci o professor Neweton, grande amigo da Federação Mineira de Karatê. Treinei com esse mestre muitos anos, competi vários campeonatos e ganhei muitas medalhas. Me tornei Adventista do Sétimo Dia. Por causa disso fiquei desempregado 3 anos. Vivia de bicos e de aulas de karatê. 
 Decidi terminar meus estudos e me inscrevi nas provas do Telecurso 2000. Consegui concluir o ensino médio e me inscrevi no vestibular da UFMG em 2001. Passei no vestibular para o curso de Letras, o que mudou minha perspectiva de vida completamente. Trabalhei como estagiário em vários setores da universidade, até me formar em 2007, após ter participado de um programa de intercâmbio nos EUA. 
 Após alguns anos trabalhando como professor na rede municipal de Contagem, e na Fundação João Pinheiro, fui aprovado num concurso para trabalhar na UFMG onde permaneço até hoje. Formei-me também em Música em 2016. Aprendi a tocar flauta transversa e estudei canto popular. Hoje continuo trabalhando na Federal e me dedicando ao estudo da música. Não sei se continuo sendo aquela mesma pessoa que eu era quando criança, mas ainda tento evoluir. Tento crescer. Acho que a vida é muito curta para chegarmos a ser quem realmente deveríamos, mas o importante é que não deixemos de seguir tentando.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Os Golpes da Sabedoria

Há um processo de anulação social que consiste em ver o sofrimento de uma pessoa e nunca abordar o tema diretamente, mas apenas de maneira difusa e dissimulada. Comenta-se e usa-se a pessoa como exemplo, mas apenas de maneira informal. Como consequência, a pessoa vítima é quem acaba desempregada e na informalidade, tendo que viver de subatividades como a coleta de recicláveis ou a venda de produtos cosméticos. Há uma destituição de valor e de identidade para a vítima, ao passo que as pessoas no topo da pirâmide enriquecem e se tornam cada vez mais proeminentes no sistema social. Más é possível lutar contra isso através do uso inteligente das faculdades intelectuais e da argumentação eficiente. Não se deve nunca partir para o corpo a corpo ou o ataque direto. Os golpes da sabedoria são muito mais contundentes.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

ANDRÉ

ANDRÉ

De Renato Frossard para André Frossard 

Acorda cedo
Separa o pão do irmão
Já saí pela casa armando confusão
Derruba uma mesa, estoura um balão

Um, dois, três cadê?
Já sumiu pra rua
Fazendo estrepolia
É o rei da brincadeira
Choque na geladeira

Com o outro irmão é protagonista
De traquinagens terríveis
A caixa de papelão
Tinha tijolo no chão
Segura a risada até que se vão
Ou você pode apanhar

Irmãos felizes a brincar
A sonhar com um mundo colorido e com oportunidades
Conversas com os amigos
Quase todos os mesmos
Enquanto um estuda, o outro está em casa
Depois um vai e o outro sai
O irmão é seu modelo
A sobrinha chora.
Oh tadinha, !tapa!

Mas o tempo muda a gente e muda as coisas
Por não termos uma bola de cristal
Nem máquina do tempo
Não percebemos que o tempo ia nos afastar
Nos levar para lugares distantes
E nos encher de ressentimentos
E de lágrimas retidas

Mas sempre há tempo de rever as mágoas
Passar manteiga
E comer com pão
André, vem tomar café.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Les Invisibiles

Les Invisibiles



Renato Frossard 

renatofrossard@gmail.com



Meus pais tiveram ao todo 8 filhos. Eu sou o do meio. Não sei ao certo o que isso significa mas senti, desde cedo, um peso maior de responsabilidade, de ser aquele que a todos desse orgulho e que ajudasse aos outros. Mas cresci sentindo uma estranha espécie de solidão e de tristeza.


A família mudou-se para uma cidadezinha no interior de Minas Gerais, lugar que ainda estava começando a se formar e a se firmar. Ali moramos primeiro de aluguel e, depois, meu pai comprou uma casinha com o dinheiro de um prêmio ganhado na loteria mineira. O sonho da casa própria se tornava realidade. 


Eu e meu irmão fomos matriculados na escola primária, pois, por causa dessas mudanças constantes, meu irmão ficou com a idade defasada em relação ao ano escolar. Já as minhas irmãs foram para o ensino fundamental. Os outros ainda não estavam em idade escolar. Íamos todos os dias a pé para a escola e não reclamávamos. Também não era comum os pais levarem seus filhos pra escola. A gente ia sozinho mesmo.


Meu pai trabalhava no centro da cidade, mas depois transferiu a oficina para a nossa casa no bairro onde morávamos. Sempre lutou muito para manter a família e sempre teve muita fé. Sinto orgulho de seu exemplo, mas, ao mesmo tempo, me ressinto de que o mundo o tenha tratado tão mal. Aliás, por que será que o mundo trata tão mal as pessoas boas?


Minha mãe… Ah, minha mãe. Complicado dizer sobre minha mãe. Um pequeno ato que gerou grandes consequências fez o casamento de meus pais chegar ao fim. Mas mesmo antes disso, nossa relação com nossa mãe era complicada. Ela não era muito de beijos e abraços e se preocupava mais com que cada um se ocupasse de alguma tarefa e que cumprisse suas obrigações. Também batia na gente, surras monumentais, quando quebrávamos alguma regra. Só depois de velho e quase na hora da morte de mamãe eu entendi melhor o seu sofrimento. Pena eu não ter entendido antes. Passei a vida toda julgando-a e deixei de apoia-la mais. Deixei de abraça-la mais.


Eu e minha família, desde que eu me entendo por gente, fomos os caudas da sociedade. Nunca conseguimos ascender muito socialmente e meu pai passou a vida inteira nessa casinha que comprou por sorte. Sopinhas de escola muitas vezes ajudaram a gente a encher a barriga e a escola era, pra mim, um meio de ter esperança de conseguir um emprego no futuro. Eu não entendia muito bem porque ou para quê eu estudava. Apenas enchia minha cabeça de informação, sem de fato desenvolver o pensamento crítico. Foi apenas anos mais tarde quando cursei o colégio que passei a entender que a pura memorização não trará necessariamente benefícios. É preciso desenvolver a capacidade intelectual para entender o complexo e injusto sistema social e, assim, tentar minimizar os impactos prejudiciais desse sistema em nossa vida. Basicamente, já sabemos, o sistema é assim: ricos pra cima, pobres pra baixo.


Tentei várias coisas, cursos, provas, exército, indústria e comércio. Mas só através da formação universitária encontrei realmente um caminho profissional. Mas, como nada é definitivo, de uma hora pra outra, o que parecia ser uma sólida carreira profissional no serviço público, foi colocada em dúvida. De repente, me encontrei como no início: só o pó e a caatinga.


Sociedade é uma palavra complexa pois envolve tudo aquilo que nos permite viver, mas também protagoniza tudo o que temos de ruim: a injustiça, o preconceito, a discriminação. Porque os pobres são temidos pelos ricos, que se opõem a sua ascenção social? Por causa de uma interpretação errônea, um medo infundado dessas pessoas de que a ascenção do pobre as prejudique quando, na verdade, só traria uma sociedade mais justa e igualitária. Mas, ao contrário, somos les Invisibiles, pessoas sem rosto e sem vez, sempre os últimos na cadeia de prioridades da sociedade e dos governantes.


Vou concluir esse texto mais por força da brevidade do artigo, mas esse assunto ainda poderia render muitos e muitos parágrafos. Porque a sociedade parece querer nos apagar do mapa? De onde vem tanto ódio? Só me resta refletir e ter fé de que as coisas ainda vão melhorar. Preciso levantar a cabeça e olhar para frente. Recomeçar. Por outro lado, preciso assistir silenciosa e respeitosamente ao esforço de artistas, lideranças, políticos, sacerdotes, donas de casa e de tantos outros atores que lutam contra a injustiça social. Fazer com que a minha voz silencie durante a transmissão de seus programas e reportagens, também é uma forma de dizer que eu também luto por eles.