MURAL DO TEXTO
Este blog pertence ao Renato Frossard, e serve como um mural para meus textos autorais. Também pretende ser um espaço de leitura aos que se interessarem por cultura geral, música, filosofia, literatura, educação, ensino, idiomas, culinária e outros assuntos. Renato Frossard é o autor de todos os textos.
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Reflexão Sobre o Amor
sábado, 8 de fevereiro de 2025
A DESCOBERTA E A EXPRESSÃO DO SER POR MEIO DA VOZ
A DESCOBERTA E A EXPRESSÃO DO SER POR MEIO DA VOZ
Renato Frossard
RESUMO
A voz é um dos instrumentos musicais mais expressivos e tem o potencial de comunicar sentimentos e emoções mesmo quando não está associada ao uso de palavras. Este artigo busca refletir sobre este potencial da voz e sobre como podemos alcançar um melhor conhecimento de nós mesmos através de nossa própria voz, alcançando nossa identidade vocal.
INTRODUÇÃO
De acordo com ALVES (2017), “a voz é um componente da comunicação humana que expressa os nossos sentimentos e modifica-se constantemente de acordo com a idade, saúde física, sexo, tipo físico, profissão, condições ambientais e emocionais”. Segundo SAHDI (2014), “a voz é o instrumento impulsionador e extensivo da busca humana em se fazer expressar além de seu território corporal, entretanto, nada funciona sem que haja um alimento capaz de se concretizar numa ação efetiva: respirar”. Para ESTIENNE (2004, apud ALVES, 2017), uma boa voz é dotada de flexibilidade, é bem adaptada para funcionar de forma livre e durável, desde que as limitações naturais e fisiológicas sejam respeitadas. Segundo o autor, quando desenvolvida, a voz pode alcançar o máximo de seu potencial.
De acordo com DEWHURST-MADDOCK (1999, p. 44), a voz reflete a condição física e mental da pessoa, podendo ser considerada, segundo ela, a parábola da alma. Para a autora, assim como os sons ligam a personalidade do indivíduo à sua unidade espiritual dentro de um todo, a voz liga a menor onda ou partícula à energia do universo. Ela sugere que a voz pode ser educada e controlada e que aprender a fazer isto pode ajudar a pessoa a melhorar seu estado mental e emocional, além de desenvolver sua confiança frente à sociedade e suas habilidades comunicativas. A autora afirma ainda que a compreensão da voz é uma excelente disciplina de autoconscientização e que é vital para a arte de ouvir. Finalmente, ela diz que a maneira como usamos a voz proporciona o discernimento para a vida de uma forma geral e que as nossas vocalizações revelam como nossas energias, sentimentos, pensamentos e intuições colaboram para o desenvolvimento de um estilo vocal único.
O processo de produção da voz consiste na expulsão do ar dos pulmões que faz vibrarem as pregas vocais, localizadas na laringe. Durante este processo, o som é modificado pela boca, lábios e pela língua. Na verdade, se considerarmos o que diz GROTOWSKY (2001, p.137-162), neste processo, todo o corpo vibra juntamente com os órgãos fonadores, colaborando com a produção e modelagem do som que, por fim, resulta na voz própria da pessoa. De acordo com ALVES (2017), para uma boa produção vocal é necessário ter boa postura corporal e um bom equilíbrio dos estados emocionais e psicológicos. Por isso, segundo ela, é essencial praticar o relaxamento corporal, sobretudo na cervical, pescoço e músculos da face. Isto faz sentido, já que a prática rotineira de atividades físicas que promovam o relaxamento do corpo pode contribuir para um melhor funcionamento geral do organismo, devendo, portanto, beneficiar direta ou indiretamente a produção da voz. Vale à pena lembramos, também, que uma boa saúde física pode influenciar no perfeito funcionamento da voz, sendo necessário, portanto, que se faça um acompanhamento periódico dos órgãos diretamente envolvidos em sua produção. De acordo com DINVILLE (1993) há uma íntima relação entre o corpo e voz. É com eles, segundo ela, que o cantor exterioriza sua afetividade e desempenha o papel intermediário entre o público e a obra musical.
De acordo com DEWHURST-MARDDOCK (1999, p. 47), cada instrumento possui três elementos básicos que, em conjunto, são responsáveis pela geração do som. São eles: a fonte de energia, um elemento vibrador e os ressonadores. No caso da voz, portanto, a fonte de energia é o ar que é expelido pelos pulmões, o vibrador são as pregas vocais e os ressonadores são as cavidades de ar e estruturas como boca, garganta, nariz e, porque não dizer, todo o corpo, se pensarmos do ponto de vista de GROTOWSKY. De acordo com ALVES (2017), a vocalização, portanto, consiste de três processos essenciais: (1) a formação ou produção do som, (2) a ressonância ou amplitude harmônica do som e (3) a articulação que, segundo a autora, é a formatação e a saída dos sons vocálicos em unidades linguísticas, isto é, as palavras. Segundo ela, o som produzido na laringe é modificado e amplificado pela faringe, nariz e boca e, posteriormente, modelado pelos movimentos dos lábios e da língua que são responsáveis pela formação dos sons vocálicos e consonantais, que juntos formam as palavras que vão comunicar sentido ao receptor. A autora explica, ainda que durante o processo de emissão da voz, na inspiração, as pregas vocais se afastam, enquanto na expiração elas se aproximam e vibram, produzindo o som. Isto, no entanto, só é possível porque, durante o movimento respiratório, os músculos diafragmáticos se expandem, na inspiração, permitindo que os pulmões captem o ar do ambiente e o distribuam para o corpo. Já na expiração, ocorre o oposto, os músculos diafragmáticos relaxam e permitem que o ar seja expulso dos pulmões. Desta forma, além de garantir as funções vitais que dependem do oxigênio para ocorrerem, o sistema respiratório permite que nossa voz seja produzida e que possamos nos comunicar com outros através da fala, de interjeições e do canto.
I - FISIOLOGIA DA VOZ
A fisiologia da voz consiste no funcionamento de nosso aparelho fonador, em todas as suas etapas até o momento da produção efetiva da voz. De acordo com ALVEZ (2017), nosso aparelho fonador é o conjunto de musculaturas que utilizamos para a articulação, ressonância, fonação e respiração. Segundo ela, este aparelho se põe em funcionamento a partir do momento em que o ar que passa pela glote produz vibrações de diferentes intensidades, que correspondem a uma nota musical ou a um som elementar.
O som que produzimos através de nosso aparelho fonador, isto é, a nossa voz, possui características próprias que podem ser qualificadas como a cor ou a identidade de nossa voz. Este conjunto de características que permitem que nossa voz ou o som de um instrumento seja reconhecido por outras pessoas é chamado de TIMBRE. De acordo com ALVES (2017), o timbre é definido pelo formato da laringe e determina qual é a tessitura vocal de cada pessoa, isto é, define se a pessoa terá uma voz mais grave ou mais aguda. Além das características anatômicas e fisiológicas da laringe como o comprimento do pescoço e uma maior ou menor proeminência do “gogó” ou pomo-de-adão, o sexo também influencia na qualidade ou tessitura vocal das pessoas. Em geral, as vozes masculinas se classificam entre baixo, barítono e tenor; enquanto que as vozes femininas se classificam entre contralto, mezzo soprano e soprano. Baixo e contralto são vozes mais graves; barítono e mezzo soprano são vozes intermediárias; e tenor e soprano são vozes mais agudas.
A busca de uma identidade vocal própria é uma tarefa que deve ser desempenhada por cada pessoa. Conhecer as características e as limitações da própria voz é extremamente importante para que se possa garantir a saúde e a qualidade vocais. De acordo com Regina MACHADO (apud MARIZ, 2013, p. 353), “A coisa mais importante para um cantor é que ele descubra sua própria maneira de cantar, sua voz”. De fato, é importante que cada pessoa, sobretudo aquelas que utilizam a voz profissionalmente como cantores e atores façam este exercício de autoconhecimento, buscando encontrar a sua própria verdade em termos de voz. Não se deve fazer como alguns artistas ou profissionais da voz que, por nutrirem admiração por certo ídolo, buscam imitar sua voz, aproximando ao máximo o seu timbre do daquele artista ao qual admiram. Não que seja errado nos inspirarmos em algum artista ao qual apreciamos, mas o erro estar em querermos nos tornar uma cópia fiel daquele. Um exemplo recente é a cantora popular Maria Rita que, mesmo sendo filha do ícone Elis Regina, busca ter a sua própria identidade vocal e realizar uma carreira baseada nos próprios méritos, ainda que, de alguma forma, sua herança biológica possa favorecê-la no campo das artes, devido ao carinho que todos têm pela memória de sua mãe.
II- A VOZ COMO EXPRESSÃO DO SER
Dentre todos os instrumentos a voz é, provavelmente, o mais expressivo. De fato, através da voz podemos comunicar emoções com ou sem palavras. Um simples suspirar sonoro pode denotar alivio ou desânimo. Uma gargalhada mostra que a pessoa está alegre ou que algo mexeu com seu senso de humor. Um grito pode expressar dor ou medo e um som interjetivo pode comunicar os mais diversos tipos de emoções. Através do canto é possível que o artista expresse o seu próprio ser em forma de som. Por tratar-se de algo tão pessoal e único de cada indivíduo, a voz serve como a marca registrada de cada pessoa e, portanto, pode representar de forma bastante acurada aquilo que a pessoa realmente é, seus sentimentos e emoções.
De acordo com SAHDI (2014 apud ALVES, 2017) a palavra usada adequadamente pode trazer sentimentos de calma, paz e harmonia. Segundo ela, estas palavras podem servir para dulcificar, educar e divinizar o ser. Ao mesmo tempo, a autora chama a atenção de que, a mesma palavra, se for dita com tal objetivo, pode trazer dor, sofrimento, tristeza, etc. Em outras palavras, através de nossa voz podemos transmitir tanto emoções positivas como a alegria e o amor quanto emoções negativas como o ódio e o rancor. No entanto, apesar da importância da palavra, em si, ser inegável, pode-se dizer que a voz é ainda mais importante na comunicação destes sentimentos e significados, pois tem o potencial de modificar e transformar as próprias palavras. Assim, para um artista do canto ou das artes dramáticas, a expressão do ser através da voz é de grande importância, pois, é através dela, em conjunto com outros recursos como a expressão facial e corporal, que ele transmite para o seu público os sentimentos do texto musical ou teatral. De fato, as palavras isoladamente não são suficientes para expressar tudo aquilo que se pode demonstrar através da voz, em conjunto com o corpo, os lábios, a face, e o olhar.
Desde que nascemos, procuramos expressar o ser através de nossa voz. O choro estridente dos recém-nascidos clama por socorro diante de um mundo totalmente novo e desconhecido. Quando consolados por seus protetores, os sons infantis que produzem demonstram contentamento e segurança, mostram-se satisfeitos e tranquilos. Com o passar dos anos deixamos de usar este recurso com tanta frequência, mas recorremos a outros que, igualmente, lançam mão das habilidades da voz. Se estamos alegres, isto é notável no som da nossa voz. Por outro lado se estamos tristes ou irritados, nossa voz também o denunciará. Mas como podemos tomar controle de nossa voz para que a utilizemos para expressar as emoções de um texto de canção ou teatro, mesmo que estas emoções não coincidam com aquela que realmente experimentamos no momento do canto ou interpretação dramática? Este é um questionamento que tem me impulsionado a pesquisar sobre a questão da expressividade da voz.
O cantor, assim como o ator, é um artista e precisa comunicar sentimento ao seu público. Quando ele utiliza a voz para produzir melodias há um texto subjacente com o qual ele precisa contribuir para que a mensagem seja transmitida com sucesso. Suponhamos que o texto da canção interpretada por um cantor trate da temática amor. Tal texto narra a história de uma mulher que, diante da iminente partida do ser amado permanece incrédula, arrasada. Ela busca a todo custo se agarrar ao ser amado e impedir sua partida. Mas quando percebe que sua tentativa é vã, ela tenta se vingar, difamar, ofender. Mas ao final do texto ela constata que tudo é inútil, pois ela simplesmente ama e pertence ao seu algoz. Trata-se de uma cena intensa, carregada de emoções que vão da incredulidade à submissão. Ora, ao interpretar uma canção como esta, o cantor ou cantora precisará lançar mão de outros recursos que não sejam simplesmente o texto. Ele poderá recorrer a expressões faciais e gestos corporais, que podem ser resultado da emoção que atravessa o seu ser. Mas o recurso ou a energia maior que poderá contribuir para o sucesso da mensagem é a própria voz do cantor. De fato, por meio desta emoção que o atravessa, o cantor poderá moldar a sua voz de forma que ela percorra todos estes estágios ou estações de emoção. A voz passará pela incredulidade, depois passará pelo inconformismo, em seguida se dirigirá para a raiva, o desejo de vingança, a sensação de pena de si mesmo/a até culminar no sentimento e na constatação da submissão, pelo fato de ainda amar perdidamente o ser que o/a abandona. Este processo pode parecer simples quando se coloca isto em forma textual, mas na prática, é uma tarefa bastante complexa. Expressar a si mesmo por meio da voz exige prática, preparação, autoconhecimento, ao menos um conhecimento mínimo das artes dramáticas, o conhecimento do poder do gesto e o entendimento do potencial comunicativo da voz em conjunto com um texto linguístico e outro texto corporal. A boa notícia é que o potencial comunicativo da voz é um fato inquestionável.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conhecer a própria voz é conhecer a si mesmo. Portanto, de uma forma geral, pode-se dizer que o princípio do sucesso em expressar o próprio ser através da voz está em conhecer as próprias emoções e aquelas que se pretende transmitir ao público. Muitas vezes as nossas emoções no momento da performance são tão intensas que influenciam na nossa maneira de cantar ou atuar, moldando aquilo que realmente executamos. Outras vezes, a intensidade de nossas emoções é tão grande que acaba por contribuir para que nossa performance seja muito mais emocional e expressiva. Outras vezes, ainda, a nossa emoção pode nos calar por completo e nos levar ao descontrole e às lágrimas.
Temos uma voz para nos expressar, o que já é um bom começo. Mas precisamos tomar consciência do potencial de nossa própria voz e da nossa emoção, para que aquilo que fazemos seja o canto, o teatro, a comunicação ou qualquer outro tipo de uso da voz seja bem sucedido. Mas principalmente para os artistas, é necessário ir mais fundo, buscar entrar em contato com a própria alma, chegar a feridas escondidas no fundo de nosso ser, conhecer os próprios medos e incertezas, bem como aquilo que julgamos forte em nós. Somente através deste autoconhecimento estaremos preparados para desempenhar a nobre arte da expressão do nosso ser através da nossa voz, descobrir a nossa identidade.
REFERÊNCIAS
ALVES, Cintia de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2017.
DINVILLE, Claire. A técnica da voz cantada. ENELIVROS. Rio de Janeiro, 1993.
DEWHURST-MADDOCK, Olivea. A cura pelo som: técnica de auto ajuda através da música e da própria voz. MADRAS. São Paulo, 1999, p. 44.
IDEM. p, 47.
ESTIENNE, Françoise. Voz Falada, Voz Cantada: avaliação e terapia. REVINTER. RIO DE JANEIRO, 2004, Apud ALVES, Cintia de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2017.
GROTOWSKY, Jerzy. In: O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowsky 1959-1969. p. 137-162. São Paulo, 2001.
SAHDI, Anna Paula. O Caminho Natural da Voz: método de canto com enfoque Terapêutico. São Paulo: Editora Alfabeto, 2014, Apud ALVES, Cintia de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2017.
MACHADO, Regina. Entrevista. In MARIZ, Joana. Entre a expressão e a técnica: a terminologia do professor de canto – um estudo de caso em pedagogia vocal de canto erudito e popular no eixo Rio-São Paulo. Tese (doutorado em música). IA – UNESP, São Paulo, 2013.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2025
Estamos vivendo a ditadura da superação. Se você não correu a São Silvestre, se não ganhou o Big Brother ou não acertou na Mega-Sena, então você não é nada. Precisamos reaprender a valorizar as pequenas conquistas diárias como ser capaz de nos levantar, escovar os dentes, pentear os cabelos e ir para o trabalho. Só quem conhece o peso de um adoecimento é capaz de entender como essas coisas são grandiozas do ponto de vista do convalescente. Antes de sair para correr, é necessário amarrar o cadarso.
sexta-feira, 26 de abril de 2024
O Eu Que Eu Era
segunda-feira, 8 de janeiro de 2024
Os Golpes da Sabedoria
sexta-feira, 17 de novembro de 2023
ANDRÉ
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
Les Invisibiles
Les Invisibiles
Renato Frossard
Meus pais tiveram ao todo 8 filhos. Eu sou o do meio. Não sei ao certo o que isso significa mas senti, desde cedo, um peso maior de responsabilidade, de ser aquele que a todos desse orgulho e que ajudasse aos outros. Mas cresci sentindo uma estranha espécie de solidão e de tristeza.
A família mudou-se para uma cidadezinha no interior de Minas Gerais, lugar que ainda estava começando a se formar e a se firmar. Ali moramos primeiro de aluguel e, depois, meu pai comprou uma casinha com o dinheiro de um prêmio ganhado na loteria mineira. O sonho da casa própria se tornava realidade.
Eu e meu irmão fomos matriculados na escola primária, pois, por causa dessas mudanças constantes, meu irmão ficou com a idade defasada em relação ao ano escolar. Já as minhas irmãs foram para o ensino fundamental. Os outros ainda não estavam em idade escolar. Íamos todos os dias a pé para a escola e não reclamávamos. Também não era comum os pais levarem seus filhos pra escola. A gente ia sozinho mesmo.
Meu pai trabalhava no centro da cidade, mas depois transferiu a oficina para a nossa casa no bairro onde morávamos. Sempre lutou muito para manter a família e sempre teve muita fé. Sinto orgulho de seu exemplo, mas, ao mesmo tempo, me ressinto de que o mundo o tenha tratado tão mal. Aliás, por que será que o mundo trata tão mal as pessoas boas?
Minha mãe… Ah, minha mãe. Complicado dizer sobre minha mãe. Um pequeno ato que gerou grandes consequências fez o casamento de meus pais chegar ao fim. Mas mesmo antes disso, nossa relação com nossa mãe era complicada. Ela não era muito de beijos e abraços e se preocupava mais com que cada um se ocupasse de alguma tarefa e que cumprisse suas obrigações. Também batia na gente, surras monumentais, quando quebrávamos alguma regra. Só depois de velho e quase na hora da morte de mamãe eu entendi melhor o seu sofrimento. Pena eu não ter entendido antes. Passei a vida toda julgando-a e deixei de apoia-la mais. Deixei de abraça-la mais.
Eu e minha família, desde que eu me entendo por gente, fomos os caudas da sociedade. Nunca conseguimos ascender muito socialmente e meu pai passou a vida inteira nessa casinha que comprou por sorte. Sopinhas de escola muitas vezes ajudaram a gente a encher a barriga e a escola era, pra mim, um meio de ter esperança de conseguir um emprego no futuro. Eu não entendia muito bem porque ou para quê eu estudava. Apenas enchia minha cabeça de informação, sem de fato desenvolver o pensamento crítico. Foi apenas anos mais tarde quando cursei o colégio que passei a entender que a pura memorização não trará necessariamente benefícios. É preciso desenvolver a capacidade intelectual para entender o complexo e injusto sistema social e, assim, tentar minimizar os impactos prejudiciais desse sistema em nossa vida. Basicamente, já sabemos, o sistema é assim: ricos pra cima, pobres pra baixo.
Tentei várias coisas, cursos, provas, exército, indústria e comércio. Mas só através da formação universitária encontrei realmente um caminho profissional. Mas, como nada é definitivo, de uma hora pra outra, o que parecia ser uma sólida carreira profissional no serviço público, foi colocada em dúvida. De repente, me encontrei como no início: só o pó e a caatinga.
Sociedade é uma palavra complexa pois envolve tudo aquilo que nos permite viver, mas também protagoniza tudo o que temos de ruim: a injustiça, o preconceito, a discriminação. Porque os pobres são temidos pelos ricos, que se opõem a sua ascenção social? Por causa de uma interpretação errônea, um medo infundado dessas pessoas de que a ascenção do pobre as prejudique quando, na verdade, só traria uma sociedade mais justa e igualitária. Mas, ao contrário, somos les Invisibiles, pessoas sem rosto e sem vez, sempre os últimos na cadeia de prioridades da sociedade e dos governantes.
Vou concluir esse texto mais por força da brevidade do artigo, mas esse assunto ainda poderia render muitos e muitos parágrafos. Porque a sociedade parece querer nos apagar do mapa? De onde vem tanto ódio? Só me resta refletir e ter fé de que as coisas ainda vão melhorar. Preciso levantar a cabeça e olhar para frente. Recomeçar. Por outro lado, preciso assistir silenciosa e respeitosamente ao esforço de artistas, lideranças, políticos, sacerdotes, donas de casa e de tantos outros atores que lutam contra a injustiça social. Fazer com que a minha voz silencie durante a transmissão de seus programas e reportagens, também é uma forma de dizer que eu também luto por eles.

