LETRAMENTO DIGITAL
Renato
Até o presente momento do curso Alfabetização e Letramento, curso “online”
ministrado pela Professora Carla Coscarelli da UFMG, muito foi lido, aprendido e discutido sobre os temas Alfabetização e Letramento. Aprendemos, por exemplo, a diferenciar os termos e a relacionar suas particularidades (Soares, 2002). Aprendemos que embora a Alfabetização e o Letramento sejam processos diferentes, eles são processos inseparáveis, e que preferencialmente devem ocorrer ao mesmo tempo (Soares, 2002). Agora, porém, um novo problema nos é apresentado. Trata-se do Letramento Digital que, em poucas palavras, significa o acesso ao computador e à internet. Neste artigo, procuraremos problematizar, discutir e apresentar sugestões para a possível solução (a longo prazo) do problema do “analfabetismo/ iletramento digital”.
Até bem pouco tempo atrás, o computador era considerado artigo de luxo. Na verdade este ainda é o caso para a grande massa do povo brasileiro. Porém, com a grande revolução tecnológica e com a melhora do poder aquisitivo das classes populares, o computador veio a tornar-se mais conhecido de uma pequena, mas significativa, parcela da população. Estes brasileiros que, por diversas questões, tiveram acesso a uma escola, um emprego assalariado, a uma casa (própria ou alugada), tiveram também condições financeiras e técnicas de possuir esta incrível máquina que é o computador. Estes brasileiros conhecem muito bem o computador, sabem lidar com diversos aplicativos, conhecem a Internet, usam freqüentemente a ferramenta e-mail e se comunicam com os amigos e familiares através dos chats ou de programas de bate papo, como o “MSN Messenger”.
Ora, sabemos que uma grande parcela da população brasileira encontra-se em estágio de analfabetismo ou iletramento (formal), não tendo domínio da leitura e da escrita. Não é difícil constatar que estas pessoas estarão, automaticamente, excluídas do mundo digital, sendo, portanto, “iletradas” nesta área. Além destas pessoas, temos uma outra parcela da população que, embora alfabetizada/ letrada, não tem acesso ao computador ou à Internet, ou seja, é composta de iletrados digitais. Através deste quadro, podemos imaginar quão grande é a exclusão digital que ainda existe em nosso país.
Dos artigos que lemos sobre o assunto, alguns falam de grupos hegemônicos que acabam formando uma espécie de parede protetora em redor de si mesmos, assumindo controle da tecnologia e forçando os excluídos cada vez mais para o limbo digital. Esta verdade é clara, bastando para isto sermos realistas e sinceros conosco mesmos. Por outro lado, alguns artigos também falam de uma força oposta, que seria a dos softwares livres, que seriam uma tentativa de contra atacar os grupos hegemônicos e, desta forma, permitir que mais pessoas das camadas populares venham a ter acesso ao mundo digital. (Araújo, 2007). Isto pode ser verdade, mas certamente ainda carece de eficácia, pois não tem sido, nem de longe, capaz de minimizar o abismo que separa excluídos de letrados digitais.
De acordo com Araújo, 55% da população brasileira “ainda não sabe o que significa usar um computador”, enquanto 68% jamais acessaram a Internet. Em outras palavras, mais da metade da população do país está excluída do uso do computador, ao passo que quase a totalidade dela está excluída do uso da Internet. Estes são valores assombrosos se considerarmos a imensa população do Brasil (População do Brasil aprox.: 183.888.841 hab, IBGE). É estranho pensarmos sobre isto a partir de nossa confortável situação de “elite intelectual do país”, “funcionários públicos”, “micro empresários”, enfim, “afortunados” por termos um emprego ou uma outra fonte de renda que nos permita o acesso a estas revoluções tecnológicas. Afinal, estas coisas são tão comuns pra nós. Alguns de nós até mesmo “nascemos conectados à Internet”, já que nossa família já tinha acesso a esta realidade desde que nascemos. Outros viemos a ter contato com esta nova realidade mais tarde em nossas vidas, após nos estabelecermos profissionalmente ou como estudantes universitários. Outros, por necessidade trabalhista, vimos nos obrigados a aprender a utilizar o computador e a Internet para podermos manter nossa posição no trabalho. Resumindo, fazemos parte de um pequeno e privilegiado grupo que tem acesso a uma das maiores invenções da humanidade – maior talvez do que a invenção de uma forma de viajar no espaço, já que os benefícios de tal empreendimento são questionáveis.
É difícil encarar esta realidade. Algo mais difícil porém é encarar a nossa atitude diante deste conhecimento. Meu questionamento é: “será que estamos combatendo a exclusão digital ou estamos tão confortáveis em nossa “cerca virtual” que acabamos reforçando a exclusão ou ignorando a mesma?” Este pode ser um questionamento doloroso, mas necessário. Precisamos reconhecer que fazemos parte deste privilegiado grupo e que ao ligarmos um computador conectado à Internet, temos a responsabilidade social de tentar fazer com que este recurso chegue a outras pessoas que então se encontram excluídas do seu uso.
Obviamente, para se combater a exclusão digital necessitamos mais do que vontade. Necessitamos recursos financeiros e políticas adequadas partindo dos nossos governos. Lutar pela consecução de tais objetivos é também uma necessidade, mas não podemos nos dar ao luxo de ficar esperando que os nossos governantes resolvam o problema por nós. O que fazer então? (...) Acredito que a maioria dos leitores deste artigo sejam educadores ou pretendam tornar-se educadores. Sabendo disso, posso dizer que talvez, a melhor solução para, pelo menos, diminuir a exclusão social deva partir de nós. Em outras palavras, conforme sugerido por Araújo, a escola pode ser vista como um ambiente de construção de uma resistência à exclusão digital. Segundo ele, embora a escola seja reconhecidamente um instrumento ideológico do estado (Althusser, 1985), ela tem o potencial para alcançar pelo menos parte da camada populacional que se encontra excluída digitalmente.
Agora, poderíamos pensar: se a escola não tem conseguido acabar com a exclusão do “letramento formal
*”, como conseguirá fazê-lo em relação ao “letramento digital”? A resposta obviamente está longe de ser simples. No entanto, se vimos até o momento que o letramento deve acontecer em conjunto com a alfabetização, preferencialmente, então podemos concluir que o letramento digital também deva ocorrer em conjunto com todo este processo. O que estou querendo dizer é que os nossos esforços para erradicar o analfabetismo e o iletramento, devem, preferencialmente, estar em conjunto com os nossos esforços para erradicar ou diminuir o iletramento digital.
Em muitas escolas públicas brasileiras, estes esforços já são uma realidade e já produzem frutos palpáveis. Em uma escola pública do município de Contagem, por exemplo, existe um projeto de informática, onde semanalmente os alunos têm aulas de informática e, em breve, poderão acessar a Internet da própria escola. Sem dúvida um grande avanço, se considerarmos a atual situação da maioria dos brasileiros. Infelizmente, estes esforços muitas vezes partem de atitudes isoladas de um ou outro educador mais “afoito” que não se conforma com uma situação de exclusão onde os recursos encontram-se disponíveis para o combate da mesma. Tais iniciativas são bem vindas e louváveis. Um esforço coletivo, porém, talvez produziria melhores frutos. De fato, uma escola inteira ou uma comunidade inteira comprometida com um ideal, produziria melhores resultados do que uma pessoa isolada poderia alcançar. De qualquer forma, acredito que seja muito melhor termos atitudes isoladas, ainda que estas partam de nós mesmos que estamos lendo este artigo, do que simplesmente esperarmos que o governo tome providências que, quando vierem, já estarão bastante atrasadas. Assim, atitudes como a dos professores desta escola de Contagem devem ser imitadas e divulgadas para que mais e mais estabelecimentos escolares possam ajudar a diminuir a exclusão digital.
Por outro lado, sabemos que são poucos os estabelecimentos escolares da rede pública, cujos alunos representam boa parte dos excluídos digitalmente, que possuem recursos para estabelecer alguma iniciativa para diminuir esta exclusão. Isto é, a maioria das escolas públicas não têm computadores em número suficiente para estabelecerem um trabalho neste sentido. Outras, até têm computadores, mas estes se encontram em “estágio terminal” e, portanto, não estão em condições de uso. Mas também há relatos de escolas que possuem laboratórios de informática com computadores novos e que estão trancados, com medo de que os alunos estraguem os computadores ou de que haja roubo dos mesmos. Ora, o que se vê é um verdadeiro contra-senso. Algumas escolas não realizam o trabalho por falta de recursos. Outras têm os recursos e não os utilizam. Também é necessário de rever este fato.
A extensão deste artigo não nos permite aprofundar o assunto demasiadamente, mas acredito que o problema que se queria levantar foi colocado com sucesso. A existência de grupos privilegiados digitalmente (dos quais muitos de nós fazemos parte), a necessidade de se combater o iletramento digital, e o posicionamento da escola como um possível instrumento de combate da exclusão digital. Atitudes isoladas também são bem vindas e louváveis, embora um esforço coletivo talvez produziria melhores resultados. Os resultados esperados, porém, não são resultados imediatos, mas resultados que serão sentidos a longo prazo. As atitudes, no entanto, devem ser tomadas já.
REFERÊNCIAS
Araújo, J. C. (Org.) . Internet e Ensino: novos gêneros, outros desafios. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.
Araújo, J. C., Dieb, M. (Orgs.). Linguagem e Educação: fios que se entrecruzam na escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
Araújo, Júlio César, Biasi-Rodrigues, Bernadete (Orgs.). Interação na Internet: Novas formas de usar a linguagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.
Araújo, Júlio César. Os gêneros digitais e o desafio de se alfabetizar letrando, Trabalhos em Lingüística Aplicada. Campinas: IEL-Unicamp. Vl. 46(1). jan/jun 2007, pp. 79-92.
* Chamamos letramento formal o domínio da leitura e da escrita em ambiente “não necessariamente digital”.