A DESCOBERTA E A EXPRESSÃO
DO SER POR MEIO DA VOZ
Renato
Frossard
RESUMO
A
voz é um dos instrumentos musicais mais expressivos e tem o
potencial de comunicar sentimentos e emoções mesmo quando não está
associada ao uso de palavras. Este artigo busca refletir sobre este
potencial da voz e sobre como podemos alcançar um melhor
conhecimento de nós mesmos através de nossa própria voz,
alcançando nossa identidade vocal.
INTRODUÇÃO
De
acordo com ALVES (2017), “a voz é um componente da comunicação
humana que expressa os nossos sentimentos e modifica-se
constantemente de acordo com a idade, saúde física, sexo, tipo
físico, profissão, condições ambientais e emocionais”. Segundo
SAHDI (2014), “a voz é o instrumento impulsionador e extensivo da
busca humana em se fazer expressar além de seu território corporal,
entretanto, nada funciona sem que haja um alimento capaz de se
concretizar numa ação efetiva: respirar”. Para ESTIENNE (2004,
apud ALVES, 2017), uma boa voz é dotada de flexibilidade, é bem
adaptada para funcionar de forma livre e durável, desde que as
limitações naturais e fisiológicas sejam respeitadas. Segundo o
autor, quando desenvolvida, a voz pode alcançar o máximo de seu
potencial.
De
acordo com DEWHURST-MADDOCK (1999, p. 44), a voz reflete a condição
física e mental da pessoa, podendo ser considerada, segundo ela, a
parábola da alma. Para a autora, assim como os sons ligam a
personalidade do indivíduo à sua unidade espiritual dentro de um
todo, a voz liga a menor onda ou partícula à energia do universo.
Ela sugere que a voz pode ser educada e controlada e que aprender a
fazer isto pode ajudar a pessoa a melhorar seu estado mental e
emocional, além de desenvolver sua confiança frente à sociedade e
suas habilidades comunicativas. A autora afirma ainda que a
compreensão da voz é uma excelente disciplina de
autoconscientização e que é vital para a arte de ouvir.
Finalmente, ela diz que a maneira como usamos a voz proporciona o
discernimento para a vida de uma forma geral e que as nossas
vocalizações revelam como nossas energias, sentimentos, pensamentos
e intuições colaboram para o desenvolvimento de um estilo vocal
único.
O
processo de produção da voz consiste na expulsão do ar dos pulmões
que faz vibrarem as pregas vocais, localizadas na laringe. Durante
este processo, o som é modificado pela boca, lábios e pela língua.
Na verdade, se considerarmos o que diz GROTOWSKY (2001, p.137-162),
neste processo, todo o corpo vibra juntamente com os órgãos
fonadores, colaborando com a produção e modelagem do som que, por
fim, resulta na voz própria da pessoa. De acordo com ALVES (2017),
para uma boa produção vocal é necessário ter boa postura corporal
e um bom equilíbrio dos estados emocionais e psicológicos. Por
isso, segundo ela, é essencial praticar o relaxamento corporal,
sobretudo na cervical, pescoço e músculos da face. Isto faz
sentido, já que a prática rotineira de atividades físicas que
promovam o relaxamento do corpo pode contribuir para um melhor
funcionamento geral do organismo, devendo, portanto, beneficiar
direta ou indiretamente a produção da voz. Vale à pena lembramos,
também, que uma boa saúde física pode influenciar no perfeito
funcionamento da voz, sendo necessário, portanto, que se faça um
acompanhamento periódico dos órgãos diretamente envolvidos em sua
produção. De acordo com DINVILLE (1993) há uma íntima relação
entre o corpo e voz. É com eles, segundo ela, que o cantor
exterioriza sua afetividade e desempenha o papel intermediário entre
o público e a obra musical.
De
acordo com DEWHURST-MARDDOCK (1999, p. 47), cada instrumento possui
três elementos básicos que, em conjunto, são responsáveis pela
geração do som. São eles: a fonte de energia, um elemento vibrador
e os ressonadores. No caso da voz, portanto, a fonte de energia é o
ar que é expelido pelos pulmões, o vibrador são as pregas vocais e
os ressonadores são as cavidades de ar e estruturas como boca,
garganta, nariz e, porque não dizer, todo o corpo, se pensarmos do
ponto de vista de GROTOWSKY. De acordo com ALVES (2017), a
vocalização, portanto, consiste de três processos essenciais: (1)
a formação ou produção do som, (2) a ressonância ou amplitude
harmônica do som e (3) a articulação que, segundo a autora, é a
formatação e a saída dos sons vocálicos em unidades linguísticas,
isto é, as palavras. Segundo ela, o som produzido na laringe é
modificado e amplificado pela faringe, nariz e boca e,
posteriormente, modelado pelos movimentos dos lábios e da língua
que são responsáveis pela formação dos sons vocálicos e
consonantais, que juntos formam as palavras que vão comunicar
sentido ao receptor. A autora explica, ainda que durante o processo
de emissão da voz, na inspiração, as pregas vocais se afastam,
enquanto na expiração elas se aproximam e vibram, produzindo o som.
Isto, no entanto, só é possível porque, durante o movimento
respiratório, os músculos diafragmáticos se expandem, na
inspiração, permitindo que os pulmões captem o ar do ambiente e o
distribuam para o corpo. Já na expiração, ocorre o oposto, os
músculos diafragmáticos relaxam e permitem que o ar seja expulso
dos pulmões. Desta forma, além de garantir as funções vitais que
dependem do oxigênio para ocorrerem, o sistema respiratório permite
que nossa voz seja produzida e que possamos nos comunicar com outros
através da fala, de interjeições e do canto.
I
- FISIOLOGIA DA VOZ
A
fisiologia da voz consiste no funcionamento de nosso aparelho
fonador, em todas as suas etapas até o momento da produção efetiva
da voz. De acordo com ALVEZ (2017), nosso aparelho fonador é o
conjunto de musculaturas que utilizamos para a articulação,
ressonância, fonação e respiração. Segundo ela, este aparelho se
põe em funcionamento a partir do momento em que o ar que passa pela
glote produz vibrações de diferentes intensidades, que correspondem
a uma nota musical ou a um som elementar.
O
som que produzimos através de nosso aparelho fonador, isto é, a
nossa voz, possui características próprias que podem ser
qualificadas como a cor ou a identidade de nossa voz. Este conjunto
de características que permitem que nossa voz ou o som de um
instrumento seja reconhecido por outras pessoas é chamado de TIMBRE.
De acordo com ALVES (2017), o timbre é definido pelo formato da
laringe e determina qual é a tessitura vocal de cada pessoa, isto é,
define se a pessoa terá uma voz mais grave ou mais aguda. Além das
características anatômicas e fisiológicas da laringe como o
comprimento do pescoço e uma maior ou menor proeminência do “gogó”
ou pomo-de-adão, o sexo também influencia na qualidade ou tessitura
vocal das pessoas. Em geral, as vozes masculinas se classificam entre
baixo, barítono e tenor; enquanto que as vozes femininas se
classificam entre contralto, mezzo soprano e soprano. Baixo e
contralto são vozes mais graves; barítono e mezzo soprano são
vozes intermediárias; e tenor e soprano são vozes mais agudas.
A
busca de uma identidade vocal própria é uma tarefa que deve ser
desempenhada por cada pessoa. Conhecer as características e as
limitações da própria voz é extremamente importante para que se
possa garantir a saúde e a qualidade vocais. De acordo com Regina
MACHADO (apud MARIZ, 2013, p. 353), “A coisa mais importante para
um cantor é que ele descubra sua própria maneira de cantar, sua
voz”. De fato, é importante que cada pessoa, sobretudo aquelas que
utilizam a voz profissionalmente como cantores e atores façam este
exercício de autoconhecimento, buscando encontrar a sua própria
verdade em termos de voz. Não se deve fazer como alguns artistas ou
profissionais da voz que, por nutrirem admiração por certo ídolo,
buscam imitar sua voz, aproximando ao máximo o seu timbre do daquele
artista ao qual admiram. Não que seja errado nos inspirarmos em
algum artista ao qual apreciamos, mas o erro estar em querermos nos
tornar uma cópia fiel daquele. Um exemplo recente é a cantora
popular Maria Rita que, mesmo sendo filha do ícone Elis Regina,
busca ter a sua própria identidade vocal e realizar uma carreira
baseada nos próprios méritos, ainda que, de alguma forma, sua
herança biológica possa favorecê-la no campo das artes, devido ao
carinho que todos têm pela memória de sua mãe.
II-
A VOZ COMO EXPRESSÃO DO SER
Dentre
todos os instrumentos a voz é, provavelmente, o mais expressivo. De
fato, através da voz podemos comunicar emoções com ou sem
palavras. Um simples suspirar sonoro pode denotar alivio ou desânimo.
Uma gargalhada mostra que a pessoa está alegre ou que algo mexeu com
seu senso de humor. Um grito pode expressar dor ou medo e um som
interjetivo pode comunicar os mais diversos tipos de emoções.
Através do canto é possível que o artista expresse o seu próprio
ser em forma de som. Por tratar-se de algo tão pessoal e único de
cada indivíduo, a voz serve como a marca registrada de cada pessoa
e, portanto, pode representar de forma bastante acurada aquilo que a
pessoa realmente é, seus sentimentos e emoções.
De
acordo com SAHDI (2014 apud ALVES, 2017) a palavra usada
adequadamente pode trazer sentimentos de calma, paz e harmonia.
Segundo ela, estas palavras podem servir para dulcificar, educar e
divinizar o ser. Ao mesmo tempo, a autora chama a atenção de que, a
mesma palavra, se for dita com tal objetivo, pode trazer dor,
sofrimento, tristeza, etc. Em outras palavras, através de nossa voz
podemos transmitir tanto emoções positivas como a alegria e o amor
quanto emoções negativas como o ódio e o rancor. No entanto,
apesar da importância da palavra, em si, ser inegável, pode-se
dizer que a voz é ainda mais importante na comunicação destes
sentimentos e significados, pois tem o potencial de modificar e
transformar as próprias palavras. Assim, para um artista do canto ou
das artes dramáticas, a expressão do ser através da voz é de
grande importância, pois, é através dela, em conjunto com outros
recursos como a expressão facial e corporal, que ele transmite para
o seu público os sentimentos do texto musical ou teatral. De fato,
as palavras isoladamente não são suficientes para expressar tudo
aquilo que se pode demonstrar através da voz, em conjunto com o
corpo, os lábios, a face, e o olhar.
Desde
que nascemos, procuramos expressar o ser através de nossa voz. O
choro estridente dos recém-nascidos clama por socorro diante de um
mundo totalmente novo e desconhecido. Quando consolados por seus
protetores, os sons infantis que produzem demonstram contentamento e
segurança, mostram-se satisfeitos e tranquilos. Com o passar dos
anos deixamos de usar este recurso com tanta frequência, mas
recorremos a outros que, igualmente, lançam mão das habilidades da
voz. Se estamos alegres, isto é notável no som da nossa voz. Por
outro lado se estamos tristes ou irritados, nossa voz também o
denunciará. Mas como podemos tomar controle de nossa voz para que a
utilizemos para expressar as emoções de um texto de canção ou
teatro, mesmo que estas emoções não coincidam com aquela que
realmente experimentamos no momento do canto ou interpretação
dramática? Este é um questionamento que tem me impulsionado a
pesquisar sobre a questão da expressividade da voz.
O
cantor, assim como o ator, é um artista e precisa comunicar
sentimento ao seu público. Quando ele utiliza a voz para produzir
melodias há um texto subjacente com o qual ele precisa contribuir
para que a mensagem seja transmitida com sucesso. Suponhamos que o
texto da canção interpretada por um cantor trate da temática amor.
Tal texto narra a história de uma mulher que, diante da iminente
partida do ser amado permanece incrédula, arrasada. Ela busca a todo
custo se agarrar ao ser amado e impedir sua partida. Mas quando
percebe que sua tentativa é vã, ela tenta se vingar, difamar,
ofender. Mas ao final do texto ela constata que tudo é inútil, pois
ela simplesmente ama e pertence ao seu algoz. Trata-se de uma cena
intensa, carregada de emoções que vão da incredulidade à
submissão. Ora, ao interpretar uma canção como esta, o cantor ou
cantora precisará lançar mão de outros recursos que não sejam
simplesmente o texto. Ele poderá recorrer a expressões faciais e
gestos corporais, que podem ser resultado da emoção que atravessa o
seu ser. Mas o recurso ou a energia maior que poderá contribuir para
o sucesso da mensagem é a própria voz do cantor. De fato, por meio
desta emoção que o atravessa, o cantor poderá moldar a sua voz de
forma que ela percorra todos estes estágios ou estações de emoção.
A voz passará pela incredulidade, depois passará pelo
inconformismo, em seguida se dirigirá para a raiva, o desejo de
vingança, a sensação de pena de si mesmo/a até culminar no
sentimento e na constatação da submissão, pelo fato de ainda amar
perdidamente o ser que o/a abandona. Este processo pode parecer
simples quando se coloca isto em forma textual, mas na prática, é
uma tarefa bastante complexa. Expressar a si mesmo por meio da voz
exige prática, preparação, autoconhecimento, ao menos um
conhecimento mínimo das artes dramáticas, o conhecimento do poder
do gesto e o entendimento do potencial comunicativo da voz em
conjunto com um texto linguístico e outro texto corporal. A boa
notícia é que o potencial comunicativo da voz é um fato
inquestionável.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Conhecer
a própria voz é conhecer a si mesmo. Portanto, de uma forma geral,
pode-se dizer que o princípio do sucesso em expressar o próprio ser
através da voz está em conhecer as próprias emoções e aquelas
que se pretende transmitir ao público. Muitas vezes as nossas
emoções no momento da performance são tão intensas que
influenciam na nossa maneira de cantar ou atuar, moldando aquilo que
realmente executamos. Outras vezes, a intensidade de nossas emoções
é tão grande que acaba por contribuir para que nossa performance
seja muito mais emocional e expressiva. Outras vezes, ainda, a nossa
emoção pode nos calar por completo e nos levar ao descontrole e às
lágrimas.
Temos
uma voz para nos expressar, o que já é um bom começo. Mas
precisamos tomar consciência do potencial de nossa própria voz e da
nossa emoção, para que aquilo que fazemos seja o canto, o teatro, a
comunicação ou qualquer outro tipo de uso da voz seja bem sucedido.
Mas principalmente para os artistas, é necessário ir mais fundo,
buscar entrar em contato com a própria alma, chegar a feridas
escondidas no fundo de nosso ser, conhecer os próprios medos e
incertezas, bem como aquilo que julgamos forte em nós. Somente
através deste autoconhecimento estaremos preparados para desempenhar
a nobre arte da expressão do nosso ser através da nossa voz,
descobrir a nossa identidade.
REFERÊNCIAS
ALVES,
Cintia de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto
Alegre, 2017.
DINVILLE,
Claire. A técnica da voz cantada. ENELIVROS. Rio de Janeiro, 1993.
DEWHURST-MADDOCK,
Olivea. A cura pelo som: técnica de auto ajuda através da música e
da própria voz. MADRAS. São Paulo, 1999, p. 44.
IDEM.
p, 47.
ESTIENNE,
Françoise. Voz Falada, Voz Cantada: avaliação e terapia. REVINTER.
RIO DE JANEIRO, 2004, Apud ALVES, Cintia de Los Santos. A Arte da
Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre, 2017.
GROTOWSKY,
Jerzy. In: O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowsky 1959-1969. p.
137-162. São Paulo, 2001.
SAHDI,
Anna Paula. O Caminho Natural da Voz: método de canto com enfoque
Terapêutico. São Paulo: Editora Alfabeto, 2014, Apud ALVES, Cintia
de Los Santos. A Arte da Técnica Vocal. EDIPUCRS. Porto Alegre,
2017.
MACHADO,
Regina. Entrevista. In MARIZ, Joana. Entre a expressão e a técnica:
a terminologia do professor de canto – um estudo de caso em
pedagogia vocal de canto erudito e popular no eixo Rio-São Paulo.
Tese (doutorado em música). IA – UNESP, São Paulo, 2013.