sexta-feira, 1 de junho de 2007





A APRENDIZAGEM NA ERA DAS INOVAÇÕES
TECNOLÓGICAS: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA


Uma Reflexaõ Sobre O Texto De Délia Santos
Renato


Em seu artigo “A Aprendizagem na Era das Inovações Tecnológicas: uma discussão necessária” Delia Santos discute a necessidade de mudança de paradigmas na educação atual em face ao desenvolvimento tecnológico e aos avanços da ciência como um todo. A autora também fala da grande dificuldade em se alcançar tal mudança e propõe ações para que este objetivo seja atingido. De acordo com Santos “o mundo hoje é o resultado de uma série de mudanças ocorridas no desenrolar da história da humanidade” o que veio a alterar o modo de vida das pessoas e da sociedade. A autora cita em seu texto importantes estudiosos como Piaget, Vigotsky, Schank, Paulo Freire, Chaves e Heide e Stilborne que, de certa forma, lhe reforçam a credibilidade.
De fato, vivemos hoje em um novo mundo e um novo tempo. Já não podemos olhar as coisas como fazíamos há dez anos atrás, por exemplo. O advento de tecnologias como o computador, o celular, a Internet, novos tipos de mídia como o DVD e o CD, entre outras, fizeram com que o conhecimento pudesse evoluir de forma nunca dantes imaginada. Pode-se dizer que a humanidade deu um salto maior do que o de Neil Armstrong ao pisar na lua pela primeira vez.
No entanto, infelizmente, nem todos os setores da sociedade acompanharam este desenvolvimento tecnológico. Os setores mais pobres da população têm, de certa forma, permanecido alienados a todo este “bum” científico. Muitas escolas públicas, por exemplo, não têm sequer computadores em número suficiente para realizar-se um trabalho com os alunos. Além disso, muitos professores ainda resistem ao uso de tecnologias em sala de aula e, quando muito, utilizam o computador apenas para fins mecânicos como a digitação e impressão de documentos. Diante de tal quadro, faz se urgente uma mudança de direção, conforme sugere Délia Santos.
O que fazer porém? Como encontrar soluções realistas e plausíveis para a realidade da educação brasileira? A autora aponta diversos problemas em seu texto e sugere atitudes que poderiam levar-nos a uma mudança na situação atual. Um dos pontos que a autora levanta é que o ensino, na maioria das instituições, continua a ser conduzido de forma tradicional e conservadora, apesar de todos os avanços no campo científico. De fato, em muitas escolas, ainda é adotada a forma tradicional de ensinar, onde o aluno é o receptor e o professor é o transmissor do saber. A autora acredita que este molde de educação não é mais viável nos tempos em que vivemos. Segundo a mesma, o momento atual exige que o ensino seja feito de forma a levar o aluno a construir o próprio saber, de forma interativa, participando do processo de aprendizagem. A autora diz ainda que neste novo molde de ensino o professor deve apresentar-se como mediador e não como o detentor exclusivo da sabedoria. De fato, não é difícil perceber que os moldes tradicionais de ensino já não atendem às necessidades de um mundo em constante evolução, onde muitas crianças já “nascem conectadas” à Internet.
A realidade é que precisamos de novos paradigmas, novas formas de ver o processo educativo e de transmitir conhecimentos. É aí que a tecnologia viria a calhar. O uso de tecnologias na escola permitiria a adoção de uma nova e instigante forma de ensinar e aprender. A Internet, por exemplo, é uma fonte quase inesgotável de conhecimento, onde podemos encontrar informações sobre praticamente todas as áreas do conhecimento, de A a Z. Segundo Castells a Internet pode ser considerada para nós hoje o que a eletricidade foi na era industrial. Em outras palavras, “poderia ser comparada com uma rede elétrica ou com um motor elétrico, em razão de sua capacidade de distribuir a força da informação por todo o domínio da atividade humana” (Castells, 2001).
No entanto, os recursos tecnológicos ainda são usados de forma muito modesta ou até mesmo nula nos estabelecimentos de ensino brasileiros. Santos atribui este mau uso de tecnologias, em parte, ao despreparo dos professores, que não estariam prontos para usar estes novos recursos ou, seja por falta de informação ou por preconceito, preferem deixar de lado tais instrumentos, por acreditarem que estes apenas favoreceriam a desigualdade social. De fato, existe ainda por parte de alguns uma certa resistência quanto ao uso de tecnologias, mas acredito que esta já seja a minoria. Isto é, quem nos dias de hoje não gostaria de poder usar o computador em sala de aula? Com certeza bem poucos não gostaria de ter esta oportunidade. Por outro lado, também é certo que muitos professores ainda não possuem muita intimidade com os avanços tecnológicos pois, para muitos deles, trata-se de novidades às quais ainda “não foram apresentados” ou tiveram contato muito superficial. Daí a autora atribuir a culpa principal do mau uso das tecnologias ao despreparo dos professores para o uso das mesmas.
Em minha opinião, a autora devaneia um pouco ao atribuir de forma tão enfática ao professor tal responsabilidade uma vez que, em muitas escolas do contexto público, a tecnologia muitas vezes não é usada no ensino, não por falta de vontade dos professores, mas pela sua simples insuficiência ou inexistência no estabelecimento de ensino. Na escola em que leciono, por exemplo, existem pouquíssimos recursos desta natureza e os que existem estão em estado bastante precário. A base do ensino nesta escola, infelizmente, ainda são o quadro negro e o giz. Nesta situação, fica difícil querer cobrar do professor que ele leve tecnologia pra dentro da escola. De fato, mesmo que o professor pretendesse trazer o próprio computador para a sala de aula, por exemplo, tal procedimento seria inviável devido ao fato de estes receberem baixos ordenados, além de serem mal vistos e mal entendidos pela sociedade. Assim, os professores, ainda que quisessem, não poderiam arcar com o preço de recursos tecnológicos para o uso em suas aulas. Se porém, como em outros países desenvolvidos, a Educação no Brasil fosse vista com mais interesse por parte dos governantes, e se a própria população cobrasse soluções concretas das autoridades, se os professores fossem valorizados em suas profissões e recebessem um salário digno, é provável que a situação do país fosse bem diferente da atual.
Acredito que os professores brasileiros, historicamente, já demonstraram ser pessoas batalhadoras e comprometidas com a educação, muitas vezes fazendo além do que deveria ser de sua responsabilidade. De fato, o combate ao crime e à violência tem sido uma preocupação constante das escolas, quando na verdade deveria partir da família e das autoridades policiais promover o controle de tais manifestações indesejáveis da sociedade.
A autora ainda sugere que os professores sejam mal educados para a profissão. É óbvio que se a situação do país vai de mal a pior e se a educação se transforma em bem de consumo, não se pode esperar que as instituições de ensino superior, com exceções, venham a formar excelentes profissionais. Acredito que a autora deveria ter mencionado isto em seu texto. Ela deveria ter levantado a discussão sobre o fato de a Educação no país ter se tornado um produto desejável e comprável, não porque se almeje conhecimento, mas porque se tem em vista a consecução de um emprego rentável. Considero extremamente justo que a pessoa queira estudar para conseguir colocação no mercado de trabalho e para se realizar profissional e pessoalmente. Mas daí a converter-se a educação em mero produto mercadológico, acredito ser um exagero inaceitável, que deve a todas as forças ser combatido.
A mercantilização do ensino vem criando verdadeiros monstros no campo da educação e fazendo uso indiscriminado da tecnologia para atingir seus objetivos. De fato, hoje em dia, o mundo funciona on-line. Se precisamos de um determinado documento, basta uma rápida pesquisa na Internet e, záz, faço o download, imprimo o documento e pronto. Agora esta “versatilidade” também está chegando no campo da educação. Nunca na história a educação à distância foi tão popular como em nossos dias. É muito fácil encontrarmos ofertas e mais ofertas de cursos de graduação e pós graduação, a baixo custo, pela Internet. Você pode obter um diploma sem precisar sair de casa. Sem dúvida um incrível avanço, mas que preocupa pelo fato de não sabermos se todas as instituições que oferecem estes cursos são idôneas e responsáveis o suficiente para fazê-lo.
Assim, vemos que não só os professores são os responsáveis pela situação do ensino nos dias de hoje, com o seu pouco ou nenhum uso de tecnologia, mas muitos outros fatores podem ser apontados como os causadores do caos em que nos encontramos. Dentre estes podemos citar:
A falta de políticas públicas que realmente visem resolver e não disfarçar os problemas da educação no país.
A ausência de comprometimento da sociedade como um todo em relação à educação.
Falta de recursos materiais nas escolas públicas.
Indisciplina e desinteresse por parte dos alunos, que já vêm de casa com graves problemas de comportamento.
De fato, a ausência de um plano sério dos governos em relação à educação no país deve ser apontada como um dos fatores que levaram o ensino a chegar ao ponto em que estamos. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, a escola deve educar a criança/ pessoa para o exercício da cidadania, fato também citado por Délia Santos em seu texto. No entanto, a ênfase do processo educacional ainda é muito focada na preparação do indivíduo para o trabalho. Além disso, as escolas públicas, como já se sabe, não possuem a infra-estrutura necessária para a consecução de um objetivo tão ousado como a educação do indivíduo de forma global. Em outras palavras, o máximo que se tem conseguido nas condições atuais é a transmissão limitada do conteúdo científico, visando a aprovação em concursos vestibulares. Ainda assim, a maioria dos alunos nem sequer conseguem chegar a este objetivo, pois a educação que recebem é tão precária e superficial, que é incapaz de lhes garantir uma passagem pelos vestibulares das universidades públicas, onde estes teriam condições de prosseguir seus estudos, e onde os efeitos nocivos da mercantilização ainda não são tão visíveis. Alguns alunos até mesmo chegam ao cúmulo de concluir o ensino fundamental sem serem capazes de ler e escrever adequadamente.
A sociedade de forma geral também é culpada pela situação do ensino no país atualmente. De fato, a educação vem sendo encarada de forma muito desinteressada por todos os setores da sociedade. Enquanto os políticos não dão a mínima para a educação, os estudantes parecem não se importar tampouco, pois se portam como se nada do que se faz ou se tenta fazer pela educação tivesse algo a ver com eles. Os pais e familiares dos alunos parecem não compreender a importância do assunto, e as classes dominantes parecem estar satisfeitas com o “emburrecimento” geral da população mais desprivilegiada do país, uma vez que, se esta camada da sociedade permanece assim, pode ser mais facilmente manipulada e controlada. Enquanto isto o governo oferece “migalhas” para calar a boca destas famílias pobres, como “a bolsa escola”, “bolsa família”, etc. É necessário que haja um despertar da própria sociedade para o fato de que o país só se desenvolverá realmente, a partir do momento em que a educação for levada a sério por todos.
Não podemos também isentar os próprios alunos de sua responsabilidade na baixa qualidade do ensino que recebem. Hoje em dia, o aluno não recebe punições físicas, uma vez que a lei lhes garante este direito. O aluno também não deve ser submetido à humilhação pública, como era a prática no passado. Concordo plenamente com esta nova concepção e acredito que as determinações legais devem ser seguidas, e que a punição física ou através de humilhação são inaceitáveis. Mas por outro lado, com um grande direito deve sempre vir uma grande responsabilidade. Em outras palavras, os alunos agora têm sobre si próprios a responsabilidade de se comportarem adequadamente no ambiente de estudo. Eles devem ter a consciência de que precisam contribuir com o professor para que este possa transmitir-lhes, ou numa visão mais construtivista, compartilhar com eles o saber. No entanto, estudantes em geral não vêm demonstrando possuir este grau de maturidade. De fato, estudantes de todas as faixas etárias têm se mostrado muito inquietos, falantes à toda hora, desrespeitosos e, por vezes, até violentos. Neste contexto, fica realmente difícil para professor alcançar seu objetivo de levar ao aluno um ensino de qualidade, de forma instigante e motivadora.
Como vimos, atribuir-se aos professores a culpa pela situação precária do ensino não é apenas uma atitude injusta, mas também utópica. Escolas sem recursos materiais, sem material didático, sem recursos tecnológicos que possam servir de incentivo para os alunos, presas a um sistema tradicional do tipo quadro e giz, não podem exigir que os professores façam milagres e se transformem em construtivistas da noite para o dia. Mesmo porque, pra se construir alguma coisa, é necessário termos as peças. Apesar disto, sabemos que cruzar os braços não é a melhor solução, e nem pretendo isentar os professores de sua parcela de culpa pela situação da educação no país, mas sei por experiência própria que, nas escolas públicas principalmente, vem se buscando novas formas de oferecer aos estudantes um ensino de qualidade, apesar da escassez de recursos que é a realidade deste contexto.
De uma forma geral, podemos concluir que a autora do texto ora analisado aponta para importantes necessidades da educação de hoje, que precisa mudar paradigmas e abandonar a forma tradicional de ensino, o que ela sugere, pode ser alcançado através da formação continuada de professores. Por outro lado, a autora parece fechar os olhos para outros fatores limitadores das ações dos professores e das instituições de ensino, que por vezes dificultam a implantação desta nova forma de ensinar e aprender, bem como a adoção de novas formas de tecnologias no contexto educacional.

Referências:
SANTOS, Delia. A Aprendizagem Na Era Das Inovações Tecnológicas: Uma Discussão Necessária.

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet. Jorge Zahar (2001).
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Paz e Terra. (1999).
Parâmetros Curriculares Nacionais.











RELATO PESSOAL

Atuo com educador na escola pública e tenho sido constantemente desafiado em meu ofício. Embora tenha procurado me preparar intensivamente durante meu processo de formação, com a aquisição de fluência na língua inglesa – objeto de meu trabalho – e da participação em experiência de ensino no exterior (USA), além de possuir habilidades em música, artes e outros campos do conhecimento, por vezes sinto me impotente frente à realidade de uma escola pública, onde os alunos são indisciplinados, embora muito inteligente e capazes, e não permitem que o professor realize as atividades a que se propõe.
Compreendo que uma mudança em meu próprio modo de entender o ensino se faça necessária. Acredito ainda estar, de certa forma, preso a certos padrões tradicionais e conservadores que já deveriam estar ultrapassados. Em outras palavras, sinto uma grande diferença entre a teoria e a prática. Vejo que as “fórmulas” aprendidas na universidade nem sempre funcionam em um contexto real e que, quase sempre, precisamos reinventar a roda, redescobrir as formas de ensinar e aprender. A meu ver a universidade nos educa para uma contexto “ideal” de ensino, onde os alunos, teoricamente, são participativos e cooperadores e as escolas são modernas e bem estruturadas, além de não terem nenhum problema de falta de material didático.
É necessário estar em constante atualização, e por isto busco constantemente o aprimoramento pessoal, através da universidade e através de outros meios, como a Internet e a leitura de livros. Sempre fui adepto ao uso das tecnologias e procuro sempre utiliza-las na medida do possível em minhas aulas. Porém, em meu contexto de trabalho atual, tais recursos são inexistentes.
O intercâmbio internacional me deu a oportunidade de conhecer outras culturas e saber de perto o que outros povos pensavam de mim, enquanto brasileiro. Pude também conversar com outras pessoas e saber que o sofrimento e as dificuldades financeiras não são privilégio deste ou daquele povo, mas que estão presentes em todos os cantos do mundo. Também tive a oportunidade de abrir os olhos para o fato de que todos podem ser vencedores se realmente se dispõem a vencer. Hoje valorizo muito mais o meu país e tenho muito mais orgulho de ser brasileiro do que poderia ter se nunca tivesse participado desta experiência.
Quanto ao curso de pós-grduação, uma das principais razões que me levaram a buscá-lo foi o fato de perceber que necessitava de algo mais para poder oferecer aos meus alunos. Vi que o fato de alguém possuir conhecimento e/ou talento não significa que esta pessoa seja um bom professor. É preciso algo mais. Assim, vi na pós-graduação uma oportunidade para começar minha busca deste algo mais, além de ter a oportunidade de trocar idéias com outros colegas e com outros profissionais de áreas diferentes, mas cuja experiência muito pode me ajudar em meu próprio crescimento. Alem disso, creio que seja necessário que a educação seja um processo constante, e que não deve parar em um curso de graduação, ou mesmo em um doutorado. Certamente tenho muito para aprender e crescer e acredito que através da pesquisa e do estudo constantes, além da prática do ensinar, chegarei a algum lugar neste laborioso processo do ensinar a aprender e do aprender a ensinar. Crescer para poder oferecer algo aos outros, esta é a minha concepção de professor. Uma pessoa vazia, nada tem a oferecer senão o vazio.
Concluindo, acredito que o sucesso de um sistema educacional não depende de ações isoladas de um ou outro profissional, mas depende de ações conjuntas de todos nós para a realização de nossos objetivos comuns. Uma educação melhor, com tecnologia ao alcance de todos é possível, mas depende do trabalho e do empenho de todos.

Nenhum comentário: