sábado, 5 de abril de 2008

FALSA PEDAGOGIA

FALSA PEDAGOGIA:
O Perigo da Associação da Profissão do Pedagogo
com Práticas Ditatoriais e Autoritárias

Renato

Remonta à época da ditadura militar no Brasil o cargo de Supervisor Escolar n as escolas públicas. Tal cargo, como se sabe, foi instituido com o objetivo de manter maior controle sobre o que era ensinado nos estabelecimentos escolares, além de legitimizar as ações do regime ditatorial. Quem já fez 30 anos lembra-se bem de disciplinas como OSPB, EMC, etc., disciplinas criadas para reforçar a idéia de patriotismo e para passar ao aluno uma idéia de legitimidade e de legalidade em todas as ações governamentais vigentes, disfarçando assim todas as atrocidades cometidas pelo poder, vigente à época.

Hoje, embora estejamos vivendo sob o regime democrático desde 1985, ainda restam no ambiente escolar, resquícios do que foi no passado o regime militar no país. Um exemplo disto é a presença do supervisor. Como o próprio nome diz, o supervisor escolar é aquele que deve “supervisionar” o trabalho dos professores de forma a certificar-se de que este esteja de acordo com o regimento escolar e com as legislações de educação vigentes. Para obter tal intento, o supervisor muitas vezes lança mão de atitudes autoritárias e arbitrárias, que por vezes causam descontentamento geral dos profissionais do estabelecimento escolar, dificultando o convívio social no local de trabalho e criando resistência, por parte dos educadores, em seguir as orientações ou ordens partidas daquele profissional.

Até aí, não existe muita novidade, pois a própria característica do cargo demonstra que um supervisor terá que tomar atitudes nem sempre populares de forma a conseguir os objetivos do estabelecimento escolar, quer sejam eles o bom funcionamento, a consecução de bons resultados por parte dos alunos, a obtenção de lucro (nos estabelecimentos privados), etc. O grande problema desta questão, e o assunto de que este artigo pretende tratar, é a vinculação da imagem do Pedagogo com a imagem do profissional de supervisão. É fácil notar que existe uma grande contradição entre o objetivo primordial do Pedagogo, que é de educar, ensinar, e contribuir para o crescimento do ser humano, e o que realmente é praticado pelos supervisores nas escolas. Na verdade, é difícil encontrar qualquer relação entre a formação recebida por este profissional nas Universidades, que é visivelmente voltada para o “aluno” e as práticas autoritárias e ditatoriais dos supervisores constatadas nas instituições de ensino. Basta ver que, em geral, o “supervisor”, que hoje recebe o nome de “pedagogo”, quase sempre se torna a figura mais impopular dentro do contexto social escolar, e que os professores muitas vezes evitam o contato mais íntimo com este profissional.

Não creio que o verdadeiro Pedagogo queira ter sua imagem relacionada com práticas autoritárias e antiquadas, que ferem direitos constitucionais, além de torná-lo (a) a “persona non grata” do organismo escolar. Assim, creio que faz-se necessário que tais profissionais revejam os rumos que suas práticas vêm tomando, e repensem suas ações de forma a se reencontrarem como Pedagogos, que é a sua verdadeira profissão e que, de alguma forma, foi o que orientou-os na busca de formação nesta área do conhecimento. Uma mudança de paradigma pode certamente trazer de volta a identidade do Pedagogo Educador, além de reestabelecer a paz, tão necessária no ambiente escolar.

Abandonar velhos hábitos, deixar práticas a muito ultrapassadas, são medidas que devem ser tomadas por todos. Já não se pode viver prezo ao fantasma da ditadura militar. Vivemos em uma democracia, e isto pressupõe liberdade de pensamento, liberdade de expressão e de direitos. Basta de “cala a boca” pois por muito tempo já nos têm “arrancado a voz da garganta”.

Sabemos que muitos Pedagogos já se reencontraram, já compreendem que seu trabalho vai além de exercer autoridade, mas trata-se da educação de seres humanos e da vida de pessoas que amam seu trabalho e primam pela excelência em seu ofício de educadores. Muitos porém, permanecem presos ao passado sombrio do autoritarismo, não compreendem que já não precisam mais ser inimigos dos educadores ou de quem quer que seja.

Já não há mais o temor da repressão armada, do exílio e da queima de arquivo. Estamos na era da liberdade e do direito à voz. Assim, é necessário despertar. Acordar para um novo dia, para uma nova prática social, onde o objetivo maior é conseguir que todos os responsáveis pelo bom funcionamento do organismo escolar possam desempenhar suas funções com tranqüilidade e autonomia, com satisfação e dignidade.

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