Linchamento Social
Renato Frossard
Há casos em que a justiça se omite no papel de apurar culpas e responsabilizar culpados? Tenho testemunhado casos em que, infelizmente, isso acontece. Como nos crimes de linchamento, em que uma pessoa é covardemente atacada por uma gangue ou até por uma população inteira, ou nas brigas de torcida de futebol, onde as autoridades sentem dificuldade em encontrar e nomear os responsáveis por uma ofensa que causou prejuízos, danos, ferimentos ou até a morte de outra (s) pessoa (s).
No linchamento social ocorre algo semelhante. Uma pessoa, por alguma razão, torna-se vítima do preconceito, velado ou explícito, de um grande número de outras pessoas com ideologias e crenças diferenciadas. Embora a pessoa seja cruelmente atacada, torturada e machucada com palavras, ofendida em sua intimidade, em seu senso de valor e autoestima, ela fica sem saber como agir ou se defender. Porquanto, muitas vezes, os ataques não ocorrem de forma direta, a pessoa é forçada a conviver com agressões diárias, com ofensas terríveis e com truques mentais que a fazem desconfiar de todos que dela se aproximam, até mesmo dos amigos mais chegados. A pessoa nessa situação começa a perder a tranquilidade e a naturalidade em suas ações. Pode se tornar excessivamente gentil e comedida ou começar a ter episódios de descontrole e explosão. Não raro, a pessoa começa a verbalizar e a falar “sozinha”, mas está, na verdade, se dirigindo aos seus agressores, pois esta é a forma que ela encontra de responder àqueles que a atacam.
A vítima de linchamento social pode se tornar deprimida e sem vontade de viver. Pode passar a ter ansiedade constante e a não conseguir encontrar alento ou esperança. De fato, num processo como esses, em que nem mesmo os familiares parecem entender o que a vítima está passando, somente os mais resilientes sobrevivem. Não é comum que o linchado escolha a autoexterminação como forma de sair do problema.
Caso você esteja sendo vítima de linchamento social ou ideológico, procure o quanto antes a ajuda de um psiquiatra para que ele te ajude a iniciar o processo de enfrentamento. Os medicamentos te ajudarão, num primeiro momento, a ter mais clareza e a encontrar formas de agir. Procure se aproximar de pessoas que você considere extremamente justas e corretas, pois será mais difícil desconfiar delas, e você poderá contar com seu apoio. Medite e ore pois a espiritualidade torna-se vital quando se enfrenta um problema assim. Ache um lugar e momento que você possa extravasar, gritar é até xingar, pois você precisa eliminar a raiva e o negativismo. Não tente guardar toda a raiva dentro de você, pois isso te destruiria. Se dê o direito de expressar, de forma controlada e que não seja diretamente dirigida a ninguém, a sua insatisfação e indignação com aquilo que estão te fazendo. Cante, dance, se exercite. Tente rir um pouco de si mesmo e fazer piada com sua própria situação. O humor é uma arma poderosa nesta luta.
É muito triste constatar o quanto os seres humanos podem ser maus uns com os outros. Mas não é surpreendente, pois sabemos de guerras, chacinas e massacres. As pessoas estão perdendo a compaixão. Estão se tornando insensíveis e, por outro lado, estão se tornando extremamente críticas do comportamento do outro. A justiça que se cobra do outro está se tornando muito mais rígida do que a justiça que alguém cobra de si mesmo. Mas não adianta se ressentir e tornar-se amargo, pois isso só piora as coisas. É melhor, já que a justiça se omite em fazer o seu papel, esquecer o desejo de vingança e de desforra, e voltar nossos olhos e intenções para ajudar outros sofredores que estão à nossa volta. Será uma ótima oportunidade de abraçar outras pessoas e, em troca, ser abraçado de volta.
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