O ESPAÇO SOCIOLÓGICO DA ACADEMIA DE MUSCULAÇÃO
Autor: Renato Frossard
O espaço físico que escolhi para essa observação foi a academia de musculação.
Escolhi este espaço por tratar-se de um local em que vou regularmente para a prática de exercícios e no qual acabo tendo contato com pessoas de diferentes origens, níveis sociais, identidades de gênero e orientação sexual, crenças ou filosofias.
Nesse espaço físico, “habitam” pessoas que, na maioria das vezes, pouco sabem umasdas outras, pouco conhecem umas das outras. As pessoas apenas compartilham esse espaço
pela força da necessidade de praticarem atividades físicas em um ambiente adequado que,caso fosse feito de maneira individual, requereria destas pessoas um alto poder aquisitivo, o
que, na maioria das vezes, as pessoas não possuem. Assim, pessoas que são praticamenteestranhas umas às outras acabam aceitando esse contato umas com as outras, ainda que não
seja um contato de amizade ou, sequer, de coleguismo.
Algumas vezes, as pessoas na academia conseguem estabelecer laços de amizade umas
com as outras, quando existe receptividade de ambas as partes. Na maioria das vezes, porém, o contato, quando ocorre, se restringe ao contato visual ou a uma mera saudação como um oi
ou um simples menear de cabeça ou um sorriso. As pessoas pouco conversam nesses ambientes, pois estão focadas em realizar seus exercícios e, depois disso, irem embora.
Há, claro, exceções. Há grupos de pessoas que se encontram nas academias comopropósito não só de exercitar-se, mas também de interagir e criar vínculos de amizade. Há também os casais que frequentam esses locais juntos e ainda amigos que combinam de treinar no mesmo horário e local, afim de fazerem companhia um ao outro.
Em minhas observações, passei a perceber que muitos têm objetivos específicos, por exemplo, querem fortalecer uma parte específica do corpo. Já outras dão ênfase a um treinamento geral visando fortalecimento e saúde, enquanto outras visam mais a parte estética.
Há ainda pessoas que parecem estar perdidas, não sabendo exatamente o que querem fazer ou qual o tipo de exercício que querem para si.
Há momentos de excelentes trocas de ideias entre os atletas. Eu mesmo, tive a oportunidade de conhecer alguns desses indivíduos e conversar sobre assuntos ligados à filosofia, à espiritualidade, á educação física e outros assuntos. Estas trocas são preciosas poispermitem nos abrir ao outro e dão abertura ao outro para que se mostre a nós. Conheci L., por exemplo, com quem conversei sobre saúde, sobre fé e sobre a própria atividade física.
Conheci uma professora do ensino infantil que me relatou suas dificuldades no trabalho e sobre seu amor pela educação, e também conheci pessoas bonitas e atraentes com as quais
tive pouco mais do que um contato visual ou com as quais troquei algumas palavras. Enfim, apesar de na maioria das vezes o contato entre as pessoas da academia ser superficial, é possível que haja estreitamento e estabelecimento de vínculo de amizade, se houver tempo e se as pessoas se permitirem essa abertura, essa quebra de defesa.
Enfim, observei que, na academia, as pessoas estão ligadas por um objetivo comum, o exercício físico. Mas também observo que eu não tenho como saber o que leva cada indivíduo a procurar um espaço como esses. A pessoa pode estar na academia por diversos fatores: por recomendação médica, por desejo pessoal de mudança, para socializar, para conhecer pessoas,
pensando em encontrar um parceiro sexual ou afetivo. Não é possível que eu preveja qual é o objetivo de cada pessoa, pois, individualmente, cada um é uma incógnita. Mas o que eu observei, também, é que eu não devo ficar devaneando sobre essas coisas, pois isso afetaria a minha própria saúde mental. O que eu posso e devo fazer é ater-me àquilo que eu tenho de informações sobre as pessoas que frequentam esse espaço físico. Por exemplo, se a pessoa treina na academia, eu posso supor que ele ou ela é um aluno ou um instrutor ou funcionário.
Se eu tiver oportunidade de conversar com a pessoa, posso perguntar seu nome. Se eu tiver um pouco mais de liberdade, posso perguntar onde a pessoa trabalha, estuda, se é casada ou solteira, se estuda e o que estuda, etc. Não penso que devamos ficar criando suposições sobre, por exemplo, se a pessoa tem interesse nisso ou naquilo, se está na academia com outro interesse que não seja treinar ou sobre qual é sua orientação sexual. Tentar ficar o mais livre de julgamentos possível, é a melhor forma de “estar” num ambiente dessa natureza.
Por fim, acredito que a academia é um ambiente exemplar de uma “microssociedade”, onde existem regras definidas, onde existem padrões e onde há uma certa ordem e limite de
ações que uma pessoa pode exercitar. Assim como na macro sociedade, é necessário que os limites de liberdade de cada indivíduo e do grupo como um todo seja respeitado, para que
todos possam conviver em harmonia e alcançar seus objetivos.
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