segunda-feira, 26 de junho de 2023

Carta a Um Flautista

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CARTA A UM FLAUTISTA

Otaner Drassorf

otanerdrassorf@gmail.com



LONG RIVER, 26 de JUNHO, 2023


Ao Brilhante Flautista Jamie 


Caro amigo Jamie,


Tenho pensado muito, nos últimos dias, na minha trajetória como músico, nos erros e acertos que cometi, nos mitos e inverdades nos quais acreditei, e em coisas desnecessárias que me causaram tanta dor e sofrimento. Por isso, pensando em evitar que essas coisas atrapalhem sua arte, e também como uma forma de compartilhar a minha experiência, resolvi escrever-lhe para aconselhar você a não cometer os mesmos erros que sempre acabam gerando os mesmos resultados. 


Quando resolvi me iniciar na flauta transversa, foi a união da oportunidade e do desejo de realizar um sonho.  Havia acabado de ingressar em uma igreja cristã que valorizava muito a música de louvor. Logo que vi a oportunidade, comecei a me envolver em tudo que se relacionava ao ministério da música: canto coral, grupo vocal, quarteto, solos. Um dia, vi um amigo com uma flauta transversal e fiquei encantado. Eu já tocava flauta doce, e fiquei super interessado em conhecer mais sobre o  instrumento. Adquiri uma flauta usada com este amigo e comecei imediatamente  meu aprendizado. Era uma flauta simples, de marca nacional, mas mesmo assim, fiquei super empolgado de poder, finalmente, realizar o meu sonho de ser um flautista. Eu tinha 23 anos.


Mas, uma coisa era tocar hinos cristãos e peças fáceis com o uso de partitura, reproduzindo as notas e ritmos de peças conhecidas. Durante um tempo, eu estive satisfeito com isso, e pensava que as peças de concerto e a música erudita para instrumentos estava muito além de meus humildes anseios  musicais. Eu nunca tinha ouvido falar em Taffanel and Gaubert ou em Moyse. Nunca havia ouvido falar em Hames Galway ou Pierre Rampal. Eu era apenas um flautista leigo, sem grandes pretensões. 


Porém, à medida que fui me aprofundando no estudo da música, tornou-se impossível ficar alheio a toda essa imensidão que compõe o mundo musical. Tornei-me consciente da grande variedade de instrumentos, da infinitude da obra musical, tanto dos grandes compositores, quanto da música popular e da música folclórica (e isto apenas me referindo àquilo de que temos registros). Fui desvendando o conhecimento científico musical, conhecendo regras, normas, convenções e tratados. Fui aos poucos entrando no mundo da erudição musical.


Talvez você não entenda o que uma pessoa pobre e humilde, a quem a vida negou todas as oportunidades, pensa quando vislumbra a possibilidade de cursar o ensino superior. A pessoa se enche de esperança, seus olhos brilham e se enchem de alegria. Ela pensa que finalmente chegou a sua vez de conquistar o seu espaço na sociedade e sair da pobreza. E era exatamente assim que eu me sentia quando decidi concluir o ensino médio, para tentar o vestibular da TURNER. 


O processo seletivo começava com o programa de isenção da taxa do vestibular. O candidato precisava levantar todos os documentos comprobatórios da carência, postar via correios e aguardar o resultado final ser publicado no site da universidade. Uma vez aprovado nesta etapa, poderia fazer a inscrição no exame vestibular. Caso contrário, teria que arcar com o valor da taxa de inscrição. Eu consegui a isenção, mas como era sabático, tive que arcar com uma outra taxa de igual valor para poder fazer o teste, ficando elas por elas. Após meses de provas e ansiedade, medo, dúvida, stress, soube da aprovação e pude, enfim, comemorar minha entrada para a universidade.


Minha primeira faculdade foi Letras, Licenciatura em Inglês. Nessa época eu já sonhava em estudar música, mas sabia do abismo que separava o meu conhecimento musical, do nível exigido para entrada no curso de música. Eu também adora a inglês, então, vi uma oportunidade de carreira no curso de letras. Depois que me formei e já estava trabalhando, me formei também como professor de português. Mas, como a vida dá mil voltas, acabei prestando um concurso público para técnico na TURNER, onde fui designado para a secretaria da faculdade de música dali. 


Passei a conviver com músicos de alto nível. Instrumentistas, professores, terapeutas, pesquisadores. Todos esses alunos convivendo no mesmo espaço físico. Esta convivência me levou a pensar que talvez fosse possível para mim, se eu me preparasse bem, concorrer a uma vaga no curso superior de música. Mas isto ficou muito tempo parado no mundo das ideias e sonhos esquecidos. Até que a TURNER passou a oferecer vagas para o curso de música popular. Decidi passar mais  uma vez pela sabatina e me inscrever, usando a voz como instrumento, ao invés da flauta. Com muita preparação, esforço, esperança e um pouco de ingenuidade, passei por todas as etapas do certame e fui aprovado no vestibular para "canto popular". Nunca fiquei tão maravilhado com uma conquista antes disso. Foi realmente maravilhoso poder iniciar o curso dos meus sonhos.

  

 Depois de efetivar a minha matrícula, fui informar-me a respeito de outras possibilidades de complementar meu currículo, pois já tinha a intenção de estudar flauta paralelamente ao canto. Soube de algumas disciplinas que podia cursar e também que poderia ter aulas junto com os alunos de flauta da música popular. Fui pegando tudo que era permitido. Também adotei uma rotina de estudo individual diária. Mas eu ainda não tinha a real noção de onde eu estava me metendo. 


Eu tentei fazer algo, talvez por ingenuidade ou desinformação, que foi tentar chegar ao nível de performance de grandes flautistas. Eu me esforçava demais, pensando que executar diariamente jogos e divertimentos, fosse o suficiente para levar um instrumentista leigo à profissionalização. O grau de stress a que isso me submeteu foi extremamente pesado e, após um tempo, me paralisou. Comecei a oscilar entre a teimosia e a frustração, mas não desisti de me tornar um flautista.


É muito difícil para um músico em amadurecimento entender o objetivo dos métodos de flauta e das escolas de virtuosismo. Quer se tornar um virtuoso? Corra destes métodos. Este seria, hoje, o meu conselho para o meu eu do passado. Os grandes mestres da flauta deixaram um vasto material de estudo, mas o seu uso deve ser feito de maneira gradativa e moderada. Não morda mais do que você possa mastigar. Este seria o princípio básico para o estudo de qualquer instrumento.


Por outro lado, apesar de meus erros, ainda nesta etapa do curso, lá pelo segundo ano, eu já era capaz de tocar muito melhor do que eu jamais imaginara conseguir na vida. Eu tocava Bach, Mozart, Debussy, Massenet, Elgar, Chopin, e Schubert. Para mim, isso era um verdadeiro milagre, e eu estava maravilhado. Mas eu havia me esquecido que estava em uma faculdade de música e de como este era um ambiente competitivo. Não tardaram a vir as críticas e zombarias contra mim. Eu ouvia as pessoas dizerem que eu "tocava tudo errado", que não sabia ler os ritmos, que o som de minha flauta não era bom o suficiente. Não posso esquecer de mencionar que havia investido uma grande soma em um instrumento para realizar meus estudos, pois as flautas que eu tivera antes não eram boas o suficiente para o nível de alta performance. Mesmo assim, para essas pessoas, eu não era bom o suficiente. Mas também não me faltava coragem, ousadia e indignação para enfrentar tudo isso. 


Mas que preço a pagar para tornar-se um instrumentista era esse? Será mesmo possível tornar-se um músico assim, em meio ao sofrimento, a ansiedade e a angústia? Hoje, vejo isso como loucura. Para aprender, a pessoa precisa de paz. Precisa de tranquilidade e de espaço para errar à vontade, sem ser repreendida por isso. O estudante precisa de tempo para entender o que quer, o que precisa fazer e aonde quer chegar. Precisará fazer muitas renúncias e escolhas, precisará comprometer-se com o seu aprendizado e entender que tipo de músico ele será.


Depois de muito sofrer e de entender muita coisa, entendi que a música é vasta o suficiente para abraçar a todos. Há os que a canção de Jobim chama de "privilegiados" e há músicos comuns. A música de concerto já era difícil de ser executada na época em que as composições foram feitas. Hoje em dia, sem a ajuda da tradição e o apoio da popularização, poucos são os que têm coragem de se aventurar numa carreira musical erudita. Mas, para aqueles que já são grandes prodígios, que ocupam o lugar de destaque à frente das orquestras sinfônicas, ou que um dia irão ocupá-lo, meu conselho é: cuidem de sua saúde. Cuidem do corpo e da mente. Façam exercícios físicos, descansem, se alimentem bem, tenham um acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Caso contrário, sua carreira, sua arte, tudo aquilo pelo qual lutaram, pode estar ameaçado.


Você, meu amigo, é um concertista, um solista excepcional. Você é capaz de executar, com perfeição, peças de grande complexidade e velocidade. Você deixa todos encantados com a beleza e a maestria de suas interpretações. Eu nunca pretendi nem pretendo alcançar o grau de performance artística que você tem. Eu adoraria ser capaz de fazer o que você faz, mas hoje eu entendo que não preciso. Contento-me em ser um artista da expressão e um pesquisador da música e da história da arte. 


Mas, sim, eu passei pelo laboratório para me colocar sob esse imenso stress e saber o que acontece. Para saber que não adianta nos esforçarmos muito além do que somos capazes. Não é o muito estudo que fará um músico, mas o método, o critério, a proporcionalidade, a sabedoria e a regularidade que farão a pessoa progredir na sua prática. Um flautista que almeja grandes saltos, deve começar com pequenos pulos. 


Então, hoje, após passar por tudo isso,  posso te aconselhar a ficar sempre atento para os momentos de maior pressão e dificuldade, para que você se dê o tempo necessário. Faça do seu terapeuta seu companheiro diário, e nunca se exceda além do seu limite. Caso contrário, chegará um ponto em que você poderá travar e atrapalhar essa trajetória tão linda. Observe a si mesmo, quando você estiver se sentindo ansioso sem saber por que, ou quando algo estiver te incomodando e tirando sua paz. Também não deixe que o excesso de perfeccionismo te impeça de avançar, nem ligue demasiadamente para críticas. Sempre que necessário, se dê um tempo sem pegar no seu instrumento. 


Enfim, sempre que você estiver no topo da montanha, depois que terminar sua demonstração, pare um pouco para observar a vista. Você é como a águia, a rainha dos céus. Mas até as águias  precisam descansar.  Lembre-se, você vai voar alto. Mas quando estiver lá em cima, aproveite o vento, relaxe, e descanse. Planar, às vezes, é bom.


You Nailed It!


Otaner Drassorf

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